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Unifesp - 2ª fase - Línguas


Questão 1 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Concordância verbal

Leia a tira a seguir:


(Folha de S.Paulo, 17.08.2013. Adaptado.)

 

Mantida a norma-padrão da língua portuguesa, a frase que preenche corretamente o segundo balão é:



a)
a) Sempre se encontra dragões com isso.
b)
Sofre disso todos os dragões.
c)
Todos os dragões o tem.
d)
Os dragões todos lhe tem.
e)
Todos os dragões têm isso.
Resolução

a) Incorreta. “Dragões” é sujeito do verbo “encontrar”, devendo este portanto estar no plural: “Sempre se encontram dragões com isso”.

b) Incorreta. A concordância do verbo “sofrer” está equivocada, pois o sujeito “todos os dragões” está no plural, assim, a oração deveria ser “Sofrem disso todos os dragões”.

c) Incorreta. A concordância do verbo “ter” está equivocada, pois o sujeito “todos os dragões” está no plural, portanto, o verbo deveria acompanhá-lo: “Todos os dragões o têm”.

d) Incorreta. A concordância do verbo “ter” com o sujeito “os dragões” está equivocada, já que o verbo deveria estar também no plural (têm). Além disso, o pronome oblíquo “lhe” somente substitui objetos indiretos, elemento inexistente na construção em análise. O complemento do verbo “ter” é direto, portanto, o pronome oblíquo adequado seria “o” – retomando “mau hálito”. O correto, então, seria “Os dragões todos o têm”.

e) Correta. A concordância do verbo ter, que está no plural (têm), com o sujeito, também no plural (todos os dragões), está de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa.

Questão 2 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu pertence à geração dos poetas que morreram prematuramente, na casa dos vinte anos, como Álvares de Azevedo e outros, acometidos do “mal” byroniano. Sua poesia, reflexo autobiográfico dos transes, imaginários e verídicos, que lhe agitaram a curta existência, centra-se em dois temas fundamentais: a saudade e o lirismo amoroso. Graças a tal fundo de juvenilidade e timidez, sua poesia saudosista guarda um não sei quê de infantil.

(Massaud Moisés. A literatura brasileira através dos textos, 2004. Adaptado.)


Os versos de Casimiro de Abreu que se aproximam da ideia de saudade, tal como descrita por Massaud Moisés, encontram- se em:



a)
a) Minh’alma é triste como a flor que morre / Pendida à beira do riacho ingrato; / Nem beijos dá-lhe a viração que corre, / Nem doce canto o sabiá do mato!
b)
b) Oh! não me chames coração de gelo! / Bem vês: traí-me no fatal segredo. / Se de ti fujo é que te adoro e muito, / És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!...
c)
c) Tu, ontem, / Na dança / Que cansa, / Voavas / Co’as faces / Em rosas / Formosas / De vivo, / Lascivo / Carmim; / Na valsa / Tão falsa, / Corrias, / Fugias, / Ardente, / Contente, / Tranquila, / Serena, / Sem pena / De mim!
d)
d) Naqueles tempos ditosos / Ia colher as pitangas, / Trepava a tirar as mangas, / Brincava à beira do mar; / Rezava às Ave-Marias, / Achava o céu sempre lindo, / Adormecia sorrindo / E despertava a cantar!
e)
e) Se eu soubesse que no mundo / Existia um coração, / Que só por mim palpitasse / De amor em terna expansão; / Do peito calara as mágoas, / Bem feliz eu era então!
Resolução

Massaud Moisés aborda em seu texto o caráter saudosista da obra de Casimiro de Abreu. Os versos do poeta, normalmente, retomam imagens das brincadeiras infantis, assim como a saudade da mãe e da irmã.

a) Incorreta. Os versos retratam a tristeza do poeta que compara a sua alma a uma flor que morre e não se encanta mais por beijos e o canto do sabiá. Portanto, nesses versos não há o sentimento de saudade, mas de tristeza.

b) Incorreta. Tais versos retratam uma temática do lirismo amoroso e o embate de sentimentos do ser enamorado, como no verso “Se de ti fujo é que te adoro e muito”, portanto, não há o sentimento da saudade, como esperado na questão.

c) Incorreta. Esses versos também retomam o encantamento do eu-lírico pela amada enquanto ela dança, em um jogo de sensualidade que atrai o poeta, não sendo assim a saudade o seu tema.

d) Correta. Os versos se iniciam com uma locução adverbial retomando tempos passados, “Naqueles tempos ditosos”; as imagens são construídas trazendo a áurea da infância alegre e pura. Os versos são marcados pelas brincadeiras realizadas pelo eu-lírico, como trepar nas mangueiras, colher pitangas, brincar à beira do mar, que demonstram o tom saudosista marcado por um não sei quê infantil, como foi expresso no texto de Massaud Moisés .

e) Incorreta: Os versos abordam a temática amorosa, o eu-lírico que sofre pela ausência de um ser amado, indiciando a contradição entre o desejo e a sua concretização.

Questão 3 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Substantivo Prefixal e Sufixal

Casimiro de Abreu pertence à geração dos poetas que morreram prematuramente, na casa dos vinte anos, como Álvares de Azevedo e outros, acometidos do “mal” byroniano. Sua poesia, reflexo autobiográfico dos transes, imaginários e verídicos, que lhe agitaram a curta existência, centra-se em dois temas fundamentais: a saudade e o lirismo amoroso. Graças a tal fundo de juvenilidade e timidez, sua poesia saudosista guarda um não sei quê de infantil.

(Massaud Moisés. A literatura brasileira através dos textos, 2004. Adaptado.)


Os substantivos do texto derivados pelo mesmo processo de formação de palavras são:



a)
a) prematuramente e autobiográfico.
b)
b) juvenilidade e timidez.
c)
c) geração e byroniano.
d)
d) saudade e infantil.
e)
e) reflexo e imaginários.
Resolução

a) Incorreta. O advérbio “prematuramente” é formado por sufixação do adjetivo “prematuro”. O substantivo “autobiográfico” é formado por justaposição dos elementos “auto” + “biográfico”.

b) Correta. O substantivo “juvenilidade” é formado por sufixação do adjetivo “juvenil”. O substantivo “timidez” é formado por sufixação do adjetivo “tímido”.

c) Incorreta. O substantivo “geração” é formado por sufixação do verbo “gerar”. O adjetivo “byroniano” é formado por sufixação do substantivo “Byron” (Lord Byron).

d) Incorreta. O substantivo “saudade” é primitivo. O adjetivo “infantil” é formado pela sufixação do substantivo “infante”.

e) Incorreta. O substantivo “reflexo” é formado por derivação regressiva do verbo “refletir”. O substantivo “imaginários” é formado por sufixação do verbo “imaginar”.

Questão 4 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Figuras de Linguagem Pressupostos e Subentendidos

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado;

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era;

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

(Obras, 1996.)


São recursos expressivos e tema presentes no soneto, respectivamente,



a)
metáforas e a ideia da imutabilidade das pessoas e dos lugares.
b)
b) antíteses e o abalo emocional vivido pelo eu lírico.
c)
sinestesias e a superação pelo eu lírico de seus maiores problemas.
d)
paradoxos e a certeza de um presente melhor para o eu lírico que o passado.
e)
hipérboles e a força interior que faz o eu lírico superar seus males.
Resolução

a) Incorreta. Em primeiro lugar, o texto não é marcado por metáforas, e sim por uma descrição relativamente direta do ambiente; além disso, o tema dominante é justamente a mutabilidade do local em que o eu-lírico se encontra (como evidenciado nos versos “Quem fez tão diferente aquele prado? / Tudo outra natureza tem tomado“).

b) Correta. O poema é marcado pela antítese, ou seja, pela apresentação de ideias opostas próximas uma à outra, como nos versos “Ali em vale um monte está mudado” e “Árvores aqui vi tão florescentes / Que faziam perpétua a primavera: / Nem troncos vejo agora decadentes”). Também não se pode deixar de notar o abalo emocional do eu-lírico, evidenciado em versos como “E em contemplá-lo tímido esmoreço”.

c) Incorreta. A sinestesia consiste na mistura de sentidos diferentes, como a visão e o olfato, o que não está presente no poema. A superação dos problemas do eu-lírico também não ocorre, como fica claro pelos versos “se estão presentes / Meus males”.

d) Incorreta. Embora as antíteses apresentadas pelo poema pudessem ser confundidas com paradoxos (que são um tipo muito mais extremo de contradição), podemos perceber claramente que a alternativa é incorreta ao analisar a segunda parte: a certeza de um presente melhor que o passado. A sensação geral do poema remete à situação oposta, com o eu-lírico sentindo a perda das características que amava naquele local (como nos versos “E em contemplá-lo tímido esmoreço” e “nem troncos vejo agora decadentes”).

e) Incorreta. Embora a mudança experimentada pelo eu-lírico possa parecer muito grande, não verificamos no poema o recurso da hipérbole (que consiste em apresentar um elemento de maneira obviamente exagerada, de modo a causar um efeito poético). Quando o poeta diz “nem troncos vejo agora decadentes”, por exemplo, não temos elementos suficientes para afirmar que se trata de um exagero. A segunda parte da alternativa também está equivocada, pois afirma que o eu-lírico superou seus males, o que é negado pelos versos “se estão presentes / Meus males”.

Questão 5 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Pressupostos e Subentendidos poesia e música

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado;

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era;

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

(Obras, 1996.)


No soneto, o eu lírico expressa-se de forma



a)
a) introspectiva, valendo-se da idealização da natureza.
b)
b) racional, mostrando-se indiferente às mudanças.
c)
c) contida, descortinando as impressões auspiciosas do cenário.
d)
d) eufórica, reconhecendo a necessidade de mudança.
e)
e) reflexiva, explorando ambiguidades existenciais.
Resolução

a) Incorreta. Há introspecção, mas não há idealização da natureza. Pelo contrário, esta é encarada como destituída das características que a faziam ser agradável.

b) Incorreta. O eu-lírico se mostra bastante afetado pelas mudanças, como explicitado no verso “E em contemplá-lo tímido esmoreço.

c) Incorreta. O eu-lírico não se mostra contido ao analisar o cenário: pelo contrário, revela suas emoções e sensações a respeito das mudanças sofridas pelo lugar. Além disso, suas impressões não são auspiciosas (positivas, otimistas), mas sim pessimistas, como evidenciado no verso “Nem troncos vejo agora decadentes’.

d) Incorreta. O eu-lírico não se revela eufórico (ao contrário: o adjetivo usado por ele é “tímido”) e não opina sobre a necessidade ou não da mudança, limitando-se a lamentar a velocidade com que ela ocorre.

e) Correta. O eu-lírico faz uma reflexão sobre as mudanças, comparando sua própria situação à do local em que ele se encontra. A relação entre o eu-lírico e a do local é que, ao contrário do ambiente, que se degenera, os males do eu-lírico parecem permanentes; essa percepção do eu-lírico pode ser classificada como uma ambiguidade existencial.

Questão 6 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Sinonímia

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado.

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

(Cláudio Manuel da Costa. Sonetos (VlI). In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Intr., sel. e notas): POESIA DO OUTRO - ANTOLOGIA. São Paulo: Melhoramentos, 1964, p.47.)


No contexto em que estão empregados, os termos sítio (1.º verso), tímido (4.º verso) e perpétua (10.º verso) significam, respectivamente,



a)
lugar, receoso e eterna.
b)
acampamento, imaturo e permanente.
c)
fazenda, obscuro e frequente.
d)
imediação, inseguro e duradoura.
e)
campo, fraco e imprescindível.
Resolução

A substituição dos vocábulos em questão no texto evidencia a pertinência da alternativa A como correta. Assim:

1º. verso: Onde estou? Este sítio desconheço:” – “sítio” é corretamente substituído por “Onde estou? Este lugar desconheço”. As opções indicadas nas outras alternativas (acampamento, fazenda, imediação e campo) não substituem adequadamente o vocábulo “sítio”.

4º. verso: “E em contemplá-lo tímido esmoreço.” – “tímido” é corretamente substituído por “E em contemplá-lo receoso esmoreço”. A opção indicada na alternativa D poderia também ser adequada: “E em contemplá-lo inseguro esmoreço”. As opções das outras alternativas (imaturo, obscuro e fraco) não substituem adequadamente o vocábulo “tímido” no contexto do poema.

10º. verso: “Que faziam perpétua a primavera:” – “perpétua” é corretamente substituído por “Que faziam eterna a primavera:”. A opção indicada na alternativa B poderia também ser adequada: “Que faziam permanente a primavera”. As opções das outras alternativas (frequente, duradoura e imprescindível) não seriam adequadas ao contexto.

Questão 7 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Ordem direta e inversa

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado;

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era;

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

(Obras, 1996.)


Nesse soneto, são comuns as inversões, como se vê no verso – Quanto pode dos anos o progresso! – que, em ordem direta, assume a seguinte redação:



a)
a) O progresso quanto pode dos anos!
b)
b) Pode quanto dos anos o progresso!
c)
c) Quanto o progresso dos anos pode!
d)
d) Pode quanto o progresso dos anos!
e)
e) Quanto dos anos o progresso pode!
Resolução

Entende-se por ordem direta a oração que apresenta respectivamente os elementos sujeito – verbo – complementos (quando existirem). Na construção em questão – Quanto pode dos anos o progresso” – identifica-se como sujeito o sintagma “o progresso dos anos”, aquele que “pode” (verbo intransitivo, sem complementos). Assim, a ordem direta da oração está corretamente indicada na alternativa c: “Quanto o progresso dos anos pode!”.

Questão 8 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

Flexão de gênero, número e grau (substantivo) Prefixal e Sufixal

 

(http://educacao.uol.com.br. Adaptado.)

Para que a fala do pescador seja coerente, as lacunas do primeiro balão devem ser preenchidas, de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, com:



a)
a) bocona – homão – rapazão.
b)
b) bocão – homenzão – rapagão.
c)
c) bocarra – homenzão – rapazão.
d)
d) bocão – homenzarrão – rapazão.
e)
e) bocarra – homenzarrão – rapagão.
Resolução

Em língua portuguesa, os aumentativos se formam geralmente com o acréscimo dos sufixos regulares –ão e –zão. Alguns vocábulos, contudo, segundo a norma-padrão da língua, têm seus aumentativos formados pelo sufixo irregular –arra. Os vocábulos em questão são distintos e os usos populares não correspondem ao que é preconizado pela gramática normativa. Assim:

- Para “boca”, espera-se o uso do sufixo –arra, formando bocarra.

As formas “bocão” e “bocona” não são aceitas pela norma-padrão (outras configurações corretas seriam boqueirão e bocaça).

- Para “homem”, espera-se o uso do sufixo –ão, formando homenzarrão, única opção preconizada pela gramática normativa.

As variantes “homão” e “homenzão” não são consideradas adequadas do ponto de vista da norma-padrão.

- Para “rapaz”, espera-se o uso do sufixo –ão, formando rapagão, única opção preconizada pela gramática normativa.

A variante “rapazão” não é considerada adequada do ponto de vista da norma-padrão.

Temos, portanto, a alternativa E como correta.

Questão 9 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

O Primo Basílio

O melro veio com efeito às três horas. Luísa estava na sala, ao piano.

– Está ali o sujeito do costume – foi dizer Juliana.

Luísa voltou-se corada, escandalizada da expressão:

– Ah! meu primo Basílio? Mande entrar. - E chamando-a: – Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém, que entre.

Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo o interesse picante. A sua malícia cheia, enfunada até aí, caiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! Subiu à cozinha, devagar, — lograda.

– Temos grande novidade, Sr.a Joana! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Basílio. - E com um risinho: – É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à última hora! O diabo tem graça!

– Então que havia de o homem ser se não parente? – observou Joana.

Juliana não respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se à janela, esperando. O céu baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade; às vezes uma aragem súbita e fina punha nas folhagens dos quintais um arrepio trêmulo.

– É o primo! – refletia ela. – E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando ele sai; e é roupa-branca e mais roupa-branca, e roupão novo, e tipóia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bêbeda! Tudo fica na família!

Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia ali muito “para ver e para escutar”. E o ferro estava pronto?

Mas a campainha, embaixo, tocou.

(Eça de Queirós. O primo Basílio, 1993.)

 


Quando é avisada de que Basílio estava em sua casa, Luísa escandaliza-se com a forma de expressão de sua criada Juliana. A reação de Luísa decorre



a)
da intimidade que a criada revela ter com o Basílio, o que deixa a patroa enciumada com o comentário.
b)
da ambiguidade que se pode entrever nas palavras da criada, referindo-se com ironia às frequentes visitas de Basílio à patroa.
c)
da indiscrição da criada ao referir-se ao rapaz, o qual, apesar do vínculo familiar, não era visita frequente na casa da patroa.
d)
do comentário malicioso que a criada faz à presença de Basílio, sugerindo à patroa que deveria envolver-se com o rapaz.
e)
da linguagem descuidada com que a criada se refere a seu primo Basílio, rapaz cortês e de família aristocrática.
Resolução

a) Incorreta. Não é possível afirmar, de acordo com o trecho e com o contexto da obra, que exista uma relação de intimidade entre Juliana e Basílio, pois sua fala com relação a ele (“Está ali o sujeito”) se mostra distante, inclusive. Tampouco é possível afirmar que Luísa se sinta enciumada com a situação.

b) Correta. A ironia e a ambiguidade estão marcadamente presentes na fala de Juliana, principalmente quando esta se refere à visita de Basílio como sendo “de costume”. A criada demonstra, com essa fala, que nota alguma estranheza com relação às visitas do primo de Luísa, o que deixa a patroa assustada com a possibilidade de que seu romance com o primo não seja secreto.

c) Incorreta. O contexto do trecho apresentado não permite que se afirme que Juliana trata com indiscrição o primo de sua patroa. Além disso, o trecho também deixa evidente que as visitas de Basílio a Luísa eram, de fato, frequentes.

d) Incorreta. O comentário de Juliana não pode ser qualificado como malicioso, e não há, em nenhum momento, a indicação por parte de Juliana que sua patroa deveria se envolver com Basílio.

e) Incorreta. Não é possível afirmar que Juliana trate Basílio com uma linguagem descuidada, pois a postura que a criada assume com o visitante é irônica, porém não descuidada.

Questão 10 Visualizar questão Compartilhe essa resolução

O Primo Basílio Tipos de Discurso

O melro veio com efeito às três horas. Luísa estava na sala, ao piano.

– Está ali o sujeito do costume – foi dizer Juliana.

Luísa voltou-se corada, escandalizada da expressão:

– Ah! meu primo Basílio? Mande entrar. - E chamando-a: – Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém, que entre.

Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo o interesse picante. A sua malícia cheia, enfunada até aí, caiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! Subiu à cozinha, devagar, — lograda.

– Temos grande novidade, Sr.a Joana! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Basílio. - E com um risinho: – É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à última hora! O diabo tem graça!

– Então que havia de o homem ser se não parente? – observou Joana.

Juliana não respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se à janela, esperando. O céu baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade; às vezes uma aragem súbita e fina punha nas folhagens dos quintais um arrepio trêmulo.

– É o primo! – refletia ela. – E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando ele sai; e é roupa-branca e mais roupa-branca, e roupão novo, e tipóia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bêbeda! Tudo fica na família!

Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia ali muito “para ver e para escutar”. E o ferro estava pronto?

Mas a campainha, embaixo, tocou.

(Eça de Queirós. O primo Basílio, 1993.)

 


Observe as passagens do texto:

– Ora, adeus! Era o primo! (7.º parágrafo)

– E o ferro estava pronto? (penúltimo parágrafo)

Nessas passagens, é correto afirmar que se expressa o ponto de vista



a)
do narrador, em terceira pessoa, distanciado, portanto, do ponto de vista de Juliana.
b)
da personagem Luísa, em discurso indireto, independente da voz do narrador.
c)
do narrador, em primeira pessoa, próximo, portanto, do ponto de vista de Juliana.
d)
da personagem Juliana, sendo que sua voz mescla-se à voz do narrador.
e)
da personagem Juliana, em discurso direto, independente da voz do narrador.
Resolução

As duas falas no contexto indicam o uso do discurso indireto livre. Tal recurso se caracteriza por entremear um pensamento de uma personagem à exposição de um narrador em 3ª pessoa, como é o caso do narrador d’O Primo Basílio. O uso de tal recurso pode ser considerado um modo de o narrador apresentar ao leitor um pensamento implícito de uma das personagens, em geral, um julgamento de valor feito por este; no caso, expressa o pensamento da personagem Juliana. Principalmente a expressão “E o ferro estava pronto?” evidencia ao candidato tratar-se de uma preocupação da empregada Juliana.

a) Incorreta. O recurso em questão aproxima o narrador e a personagem Juliana.

b) Incorreta. As três afirmações são inválidas: o discurso é da personagem Juliana, não de Luísa; não se trata de Discurso Indireto, mas Indireto Livre; não é independente da voz do narrador.

c) Incorreta. Não se trata, em O Primo Basílio, de um narrador em Primeira Pessoa, embora seja verdade que neste recurso o narrador e a personagem se aproximem.

d) Correta. Como o exposto no comentário inicial, esta é a alternativa correta.

e) Incorreta. A fala é de Juliana; o discurso não é direto; depende da voz do narrador.