Após a tomada e o saque de Roma pelos visigodos, em 410, pagãos e cristãos interrogaram-se sobre as causas do acontecimento. Para os pagãos, a resposta era clara: foram os maus princípios cristãos, o abandono da religião de Roma, que provocaram o desastre e o declínio que se lhe seguiram. Do lado cristão, a queda de Roma era explicada pela comparação entre os bárbaros virtuosos e os romanos decadentes: dissolutos, preguiçosos, sendo a luxúria a origem de todos os seus pecados.
(Adaptado de Jacques Le Goff, “Decadência”, em História e Memória. Campinas, Ed. da Unicamp, 1990, p. 382-385.)
a) Identifique no texto duas visões opostas sobre a queda de Roma.
b) Entre o surgimento do cristianismo e a queda de Roma, que mudanças ocorreram na relação do Império Romano com a religião cristã?
a) O texto permite identificar as seguintes visões sobre a queda do Império Romano:
A dos pagãos: para os pagãos (politeístas), a queda de Roma estava associada às mudanças na concepção religiosa, pois, segundo eles, a conversão dos romanos ao cristianismo significava “o abandono da religião de Roma”.
A dos cristãos: para os cristãos, a queda de Roma estava relacionada aos costumes romanos (considerados pecado pela óptica cristã), tais como a luxúria (os romanos não eram monogâmicos e tinham relações homoeróticas antes da consolidação do cristianismo) e a preguiça (os romanos formavam o maior Império escravista da Antiguidade, portanto relegavam o trabalho aos escravos).
b) Os romanos eram politeístas, e possuíam crenças que, assim como seus cultos, tinham como base a mitologia, sendo que os deuses romanos eram basicamente os mesmos da Grécia Antiga, só que com nomes diferentes. Na época do Império (27 a.C. – 476 d.C.), o próprio Imperador romano passou a ser considerado divino, recebendo o título de Augustus (divino) do Senado, fato que reforça o caráter politeísta da religião romana.
O cristianismo foi introduzido no Império Romano a partir das pregações de Jesus Cristo. Um dos principais pontos de divergência entre o cristianismo e as crenças romanas relaciona-se ao monoteísmo pregado pelos cristãos. Acreditando na existência de um único Deus, os cristãos negavam a divindade do Imperador.
Pregavam também o pacifismo, o que diminuía o poderio militar romano, e a igualdade, fazendo com que a religião conseguisse adeptos principalmente entre as massas populares, que algumas vezes se negaram a pagar os impostos diante da tamanha desigualdade da sociedade romana.
Inicialmente, entretanto, o cristianismo não conseguiu muitos adeptos, de modo que o fato de negar a divindade do Imperador não incomodou as autoridades imperiais. A partir dos anos 60 da era cristã, porém, as idéias pregadas por Jesus Cristo passaram a ser transmitidas pelos apóstolos e aceitas por parte considerável da população romana da Palestina.
Desta forma, entre os anos 70 e 313, os cristãos foram perseguidos e punidos pelo Estado Romano, já que negavam a divindade do Imperador. Como punição, os cristãos eram “jogados” para leões ou outros animais ferozes, em espetáculos que ocorriam em arenas, alimentando a política do Pão e Circo praticada pelo Estado Romano. Outro tipo de punição, menos comum, era o empalamento do cristão.
No ano de 313, o Imperador Constantino, convertido ao cristianismo, e também buscando agradar uma grande “massa de cristãos” que fazia parte do Império, decretou o Edito de Milão, concedendo liberdade de culto aos cristãos.
Na segunda metade do século IV, o Imperador Teodósio decretou o Edito da Tessalônica, documento que tornou o cristianismo religião oficial do Império Romano.
Portanto, a grande mudança na relação entre Império Romano e religião cristã foi: a perseguição do Império Romano sobre os cristãos e a posterior oficialização do cristianismo como religião do Império Romano.