Luc Boltanski e Ève Chiapello demonstram com clareza e sagacidade a capacidade antropofágica do capitalismo financeiro que “engole” a linguagem do protesto e da libertação para transformá-la e utilizá-la para legitimar a dominação social e política a partir do próprio mercado.
Na dimensão do mundo do trabalho, por exemplo, todo um novo vocabulário teve que ser inventado para escamotear as novas transformações e melhor oprimir o trabalhador. Com essa linguagem aparentemente libertadora, passa-se a impressão de que o ambiente de trabalho melhorou e o trabalhador se emancipou.
Assim houve um esforço dirigido para transformar o trabalhador em "colaborador", para eufemizar e esconder a consciência de sua superexploração; tenta-se também exaltar os supostos valores de liderança para possibilitar que, a partir de agora, o próprio funcionário, não mais o patrão, passe a controlar e vigiar o colega de trabalho. Ou, ainda, há a intenção de difundir a cultura do empreendedorismo, segundo a qual todo mundo pode ser empresário de si mesmo. E, o mais importante, se ele falhar nessa empreitada, a culpa é apenas dele. É necessário sempre culpar individualmente a vítima pelo fracasso socialmente construído.
SOUZA, Jessé. Como o racismo criou o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2021.
O uso dos verbos “passar” (2º parágrafo) e “tentar” (3º parágrafo) no texto, em sua forma pronominal, revela
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adequação à forma analítica da voz passiva. |
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construção com conjunção integrante. |
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marcação da impessoalidade do discurso. |
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informalidade correspondente ao gênero discursivo. |
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ênfase na reciprocidade da linguagem. |
No trechos “Com essa linguagem aparentemente libertadora, passa-se a impressão de que o ambiente de trabalho melhorou e o trabalhador se emancipou” e “tenta-se também exaltar os supostos valores de liderança”, o pronome “se” é utilizado para impessoalizar a linguagem. Nos dois casos, o pronome é usado junto de um verbo transitivo direto (passar e tentar, respectivamente) e, desse modo, é formada a voz passiva sintética, também chamada de voz passiva pronominal. Essa estratégia é marcante em um texto acadêmico como esse, em que o autor decide focar em um fenômeno social, e não nos agentes responsáveis pela ação verbal. Sendo assim,
a) Incorreta. A construção não corresponde à voz passiva analítica, mas sim à voz passiva sintética.
b) Incorreta. O termo “se”, nesse caso, não é uma conjunção integrante, e sim um pronome.
c) Correta. Como dito, o uso do pronome, nesse caso, visa à impessoalidade do texto.
d) Incorreta. O uso do pronome “se” não marca informalidade e, além disso, o gênero discursivo em questão possui um aspecto bastante formal.
e) Incorreta. O pronome “se”, no texto, não marca a voz recíproca.