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Questão 78 Fuvest 2021 - 1ª fase

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Questão 78

João Cabral de Melo Neto

Psicanálise do açúcar


O açúcar cristal, ou açúcar de usina,

mostra a mais instável das brancuras:

quem do Recife sabe direito o quanto,

e o pouco desse quanto, que ela dura.

Sabe o mínimo do pouco que o cristal

se estabiliza cristal sobre o açúcar,

por cima do fundo antigo, de mascavo,

do mascavo barrento que se incuba;

e sabe que tudo pode romper o mínimo

em que o cristal é capaz de censura:

pois o tal fundo mascavo logo aflora

quer inverno ou verão mele o açúcar.


Só os banguês* que-ainda purgam ainda

o açúcar bruto com barro, de mistura; a

usina já não o purga: da infância,

não de depois de adulto, ela o educa;

em enfermarias, com vácuos e turbinas,

em mãos de metal de gente indústria,

a usina o leva a sublimar em cristal

o pardo do xarope: não o purga, cura.

Mas como a cana se cria ainda hoje,

em mãos de barro de gente agricultura,

o barrento da pré-infância logo aflora

quer inverno ou verão mele o açúcar.

 

João Cabral de Melo Neto, A Educação pela Pedra.

*banguê: engenho de açúcar primitivo movido a força animal.

 


Os últimos quatro versos do poema rompem com a série de contrapontos entre a usina e o banguê, pois



a)

negam haver diferença química entre o açúcar cristal e o açúcar mascavo.

b)

esclarecem que a aparência do açúcar varia com a espécie de cana cultivada.

c)

revelam que na base de toda empresa açucareira está o trabalhador rural.

d)

denunciam a exploração do trabalho infantil nos canaviais nordestinos.

e)

explicam que a estação do ano define em qualquer processo o tipo de açúcar.

Resolução

a) Incorreta. Os quatro últimos versos do poema trazem uma semelhança entre o açúcar cristal e o mascavo: ambos se sustentam a partir da colheita da cana-de-açúcar.

b) Incorreta. A cana cultivada é a mesma. A partir dela, são produzidos diferentes tipos de açúcar, como o cristal e o mascavo.

c) Correta. Ao longo do poema, João Cabral de Melo Neto apresenta contrapontos entre o açúcar cristal e o mascavo produzidos pela usina (processo moderno de produção e branqueamento do açúcar) a o banguê (engenho de açúcar primitivo, anterior à usina). Para o poeta, embora o processo de produção dos açúcares no engenho e na usina tenha diferenças expressivas,  ambos os tipos provêm da cana, que ainda é colhida pelas mãos de trabalhadores rurais (“Mas como a cana se cria ainda hoje, / em mãos de barro de gente da agricultura). Assim, na base de toda empresa açucareira está o trabalhador rural, independentemente do produto final derivado da cana.

d) Incorreta. Não há menção no poema quanto ao trabalho infantil.

e) Incorreta. Não há referência quanto à interferência da estação do ano no processo de produção dos açúcares. Essa menção às estações aparece nas últimas estrofes, mas para justificar a importância do trabalhador rural. Segundo João Cabral, as “mãos de barro” da “gente da agricultura” ainda são responsáveis pela colheita da cana, “quer inverno ou verão mele o açúcar”.