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Questão 29 Unesp 2020 - 2ª fase - dia 2 - Linguagens e Redação

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Questão 29

textos híbridos Fernando Pessoa

Leia o ensaio de Eduardo Giannetti para responder às questões 29 e 30.

A maçã da consciência de si. — O labrador dourado saltando com a criança na grama; o balé acrobático do sagui; a liberdade alada da arara-azul cortando o céu sem nuvens — quem nunca sentiu inveja dos animais que não sabem para que vivem nem sabem que não o sabem? Inveja dos seres que não sentem continuamente a falta do que não existe; que não se exaurem e gemem sobre a sua condição; que não se deitam insones e choram pelos seus desacertos; que não se perdem nos labirintos da culpa e do desejo; que não castigam seus corpos nem negam os seus desejos; que não matam os seus semelhantes movidos por miragens; que não se deixam enlouquecer pela mania de possuir coisas? O ônus da vida consciente de si desperta no animal humano a nostalgia do simples existir: o desejo intermitente de retornar a uma condição anterior à conquista da consciência. — A empresa, contudo, padece de uma contradição fatal. A intenção de se livrar da autoconsciência visando a completa imersão no fluxo espontâneo e irrefletido da vida pressupõe uma aguda consciência de si por parte de quem a alimenta. Ela é como o fruto tardio sonhando em retornar à semente da qual veio ao galho. [...] O desejo de saltar para aquém do cárcere do pensar se pode compreender — e até cultivar — em certa medida, mas o lado de fora não há. A consciência é irreparável; dela, como do tempo, ninguém torna atrás ou se desfaz. Desmorder a maçã não existe como opção. 

(Trópicos utópicos, 2016.)


a) No ensaio, o que o autor entende por “simples existir”?

b) Considere os seguintes trechos de poemas de Fernando Pessoa:

1. De resto, nada em mim é certo e está
    De acordo comigo próprio. As horas belas
    São as dos outros ou as que não há.

2. O essencial é saber ver,
    Saber ver sem estar a pensar,
    Saber ver quando se vê,
    E nem pensar quando se vê
    Nem ver quando se pensa.

3. O meu misticismo é não querer saber.
    É viver e não pensar nisso.
    Não sei o que é a Natureza: canto-a.

4. Venho de longe e trago no perfil,
    Em forma nevoenta e afastada,
    O perfil de outro ser que desagrada
    Ao meu atual recorte humano e vil.

Em quais trechos se observa “a intenção de se livrar da autoconsciência visando a completa imersão no fluxo espontâneo e irrefletido da vida”? Justifique sua resposta.



Resolução

a) Segundo o autor do ensaio, o "simples existir" está associado à ideia de viver sem refletir sobre atos ou acontecimentos, relação que aparece explicitada, no texto, como o "desejo intermitente de retornar a uma condição anterior à conquista da consciência". No raciocínio estabelecido pelo autor, uma existência livre da consciência, ou seja, livre da possibilidade de analisar sua condição no mundo, é uma existência almejada pelos homens, que a veem nos animais (o labrador, o sagui, a arara-azul), por exemplo.

b) Considerando os trechos disponibilizados, percebe-se uma relação estreita com o ensaio de Eduardo Giannetti apenas nos trechos 2 e 3. No ensaio, o autor aponta para a característica de se desvencilhar da consciência e da reflexão para, assim, poder seguir o fluxo da vida de forma contínua, tal como o fazem os animais. Quando analisados os versos de Fernando Pessoa, vemos que o trecho 2 aponta para a necessidade de “Saber ver sem estar a pensar”, ou seja, para a necessidade de conseguir viver sem refletir, recuperando a ideia trazida pelo ensaio. De forma análoga, o eu lírico do trecho 3 diz que seu misticismo “É viver e não pensar nisso”, novamente retomando a ideia de viver sem refletir sobre essa condição.