“Durante muito tempo, o descobrimento da América foi visto apenas como o grande feito do homem europeu que se tornava irreversivelmente moderno e crescentemente racionalista. Aprisionando e controlando pela primeira vez o espaço do globo, esse homem passava a ser senhor dos mares e subjugador das culturas estranhas, impondo por toda a parte seu credo, seus hábitos, sua visão de mundo. A descoberta da América apressaria inclusive a consolidação da moderna ciência, assentada no que hoje chamamos de paradigma galileico; garantiria a vitória do cálculo matemático e de uma percepção ordenada do universo, onde fenômenos até então incompreensíveis ou explicados em chave maravilhosa passavam a ter explicação racional.
Se considerarmos o caso português, veremos que, enquanto as caravelas cruzavam os mares obedecendo a cálculos precisos, multidões se deliciavam, na Corte, com os espetáculos de Gil Vicente, onde se abria espaço às práticas cotidianas do povo comum, eivadas de magismo e de maravilhoso.”
Laura de Mello e Souza. Inferno atlântico: demonologia e colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
a) Dê um exemplo que justifique a afirmação de que a “descoberta da América (...) garantiria a vitória do cálculo matemático e de uma percepção ordenada do universo”.
b) Cite duas realizações desse “homem [que] passava a ser senhor dos mares e subjugador das culturas estranhas, impondo por toda a parte seu credo, seus hábitos, sua visão de mundo”.
c) Analise a afirmação presente na primeira frase do excerto a partir do que é dito no segundo parágrafo do excerto.
a) A afirmação presente no texto é que a descoberta da América garantiria a vitória do cálculo matemático e de uma percepção ordenada do universo. O texto, em seguida, exemplifica isso ao mencionar que as caravelas portuguesas cruzavam os mares obedecendo a cálculos precisos. A navegação transoceânica, essencial para a "descoberta" e conquista da América, exigia o uso de instrumentos e conhecimentos avançados de matemática (cálculos de latitude e longitude), astronomia (uso do astrolábio e quadrante) e cartografia. O sucesso dessas viagens, que implicava o controle preciso do espaço geográfico e o domínio dos mares, é o exemplo concreto da aplicação dessa "percepção ordenada do universo" e da "vitória do cálculo matemático" sobre a explicação baseada no "maravilhoso" para fenômenos naturais.
b) Dentre as realizações do "homem europeu", que se tornou "senhor dos mares e subjugador das culturas estranhas, impondo por toda a parte seu credo, seus hábitos, sua visão de mundo", podemos apontar a conquista territorial e domínio das rotas marítimas e novos continentes (no texto, "Aprisionando e controlando pela primeira vez o espaço do globo") e a imposição cultural, religiosa (cristianização/credo) e social sobre os povos nativos encontrados. Assim, houve a implementação de sistemas de exploração, como as capitanias hereditárias e as encomiendas, e a subordinação das populações nativas (e, posteriormente, africanas escravizadas) a hábitos e visões de mundo europeus, como o direito de propriedade, o trabalho compulsório e a organização social hierárquica europeia (no texto, "Impondo por toda a parte seu credo, seus hábitos, sua visão de mundo").
c) A primeira frase - "o descobrimento da América foi visto apenas como o grande feito do homem europeu que se tornava irreversivelmente moderno e crescentemente racionalista" - estabelece a visão histórica tradicional, eurocêntrica, que enaltece o caráter moderno e racionalista do europeu a partir do feito da "descoberta". O segundo parágrafo, contudo, introduz um contraste ou uma nuance a essa visão puramente racionalista, ao apontar que, simultaneamente ao avanço científico (cálculos precisos na navegação e o paradigma galileico), a sociedade europeia (no caso, a Corte portuguesa) ainda apreciava espetáculos de Gil Vicente, os quais eram "eivados de magismo e de maravilhoso". Ao analisarmos esse contraste, percebemos que a afirmação da primeira frase, ao exaltar a europeização como um processo de modernização e racionalização irreversível, é parcialmente relativizada pelo segundo parágrafo. O texto sugere que, mesmo no auge da expansão e da consolidação da ciência moderna (o racionalismo em ação nas caravelas), havia uma coexistência (ou coexistência de camadas sociais) de crenças populares, práticas cotidianas e formas de entretenimento que ainda estavam permeadas pelo "magismo e de maravilhoso". Ou seja, a modernidade e o racionalismo não haviam suplantado completamente o elemento mágico e maravilhoso na cultura e no imaginário social europeu da época.