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Questão 3 Fuvest 2026 - 2ª fase - dia 2

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Questão 3

Nova Ordem Mundial (Conflitos contemporâneos)

“As agitações de 1989 na China superaram em escala e intensidade quaisquer outras ocorridas na Europa Oriental, para não falar na Rússia, naquele ano ou nos seguintes. A energia rebelde e o idealismo dos estudantes chineses, bem como a solidariedade ativa da população urbana, não tiveram paralelo em outros lugares: um testemunho, a seu modo, da vitalidade política de uma sociedade ainda próxima das suas origens revolucionárias. Na China, porém, energias de dois tipos se chocaram. Quando veio a crise, a liderança pós-revolucionária responsável pela administração diária do Estado e do Partido hesitou e ficou dividida. Mas os Anciãos, veteranos de décadas de luta armada para a conquista do poder, não iriam perdê-lo por indecisão. Eles ainda eram os combatentes de sempre, não hesitando em neutralizar uma ameaça ao poder do Partido, tal como a viam, tão logo se mobilizou a força necessária para tanto. Em junho, o Exército de Libertação Popular recebeu ordens de evacuar a praça, e o movimento foi esmagado numa noite de violência.”

ANDERSON, Perry. Duas revoluções: Rússia e China. São Paulo: Boitempo, 2018, tradução: Hugo Mader e Pedro Davoglio.

A partir do excerto e considerando a história da China, responda:

a) O que foram as “agitações de 1989” citadas no excerto?

b) Quem são os Anciãos mencionados no excerto?

c) Após 1989, como se desenvolveu o modelo do socialismo com características chinesas?



Resolução

a) As “agitações de 1989” citadas no excerto referem-se aos Protestos na Praça da Paz Celestial, também conhecidos como Massacre da Praça Tiananmen. Este foi um movimento de protestos liderado predominantemente por estudantes, intelectuais e trabalhadores urbanos, que ocorreu na Praça Tiananmen, em Pequim, e em outras cidades chinesas, durante a primavera de 1989. Os manifestantes clamavam por maior democracia, liberdade de expressão, fim da corrupção dentro do Partido Comunista Chinês (PCC) e reformas políticas mais amplas. O movimento foi brutalmente reprimido pelo Exército de Libertação Popular em 4 de junho de 1989, conforme alusão no texto ("o movimento foi esmagado numa noite de violência").

b) Os “Anciãos” mencionados no excerto são os líderes veteranos, figuras históricas proeminentes e de alta patente dentro do Partido Comunista Chinês (PCC) e do Estado, que participaram da Revolução Comunista Chinesa (1949) liderada por Mao Tsé-Tung e que mantinham influência significativa sobre a política do país, mesmo após a morte de Mao e as reformas de Deng Xiaoping. Eram caracterizados por uma mentalidade de linha dura (hardline) em relação à manutenção do poder absoluto do Partido Comunista e à estabilidade política, vendo as manifestações como uma ameaça existencial à autoridade do PCC. Foram eles que, segundo o texto, decidiram mobilizar a força militar (o Exército de Libertação Popular) para reprimir os protestos, superando a hesitação da liderança administrativa diária.

c) O modelo do socialismo com características chinesas, consolidado a partir das reformas iniciadas por Deng Xiaoping, desenvolveu-se após 1989 em uma direção marcada pela aceleração das reformas econômicas com o endurecimento do controle político. A repressão de 1989 serviu para eliminar a pressão política por democracia, permitindo que o regime se concentrasse em garantir a legitimidade econômica. A mensagem era clara: o PCC manteria o monopólio político, mas permitiria a expansão de uma economia de mercado, sob sua estrita supervisão. O modelo prosseguiu com a abertura para investimentos estrangeiros, a criação de Zonas Econômicas Especiais e a introdução de mecanismos de mercado, visando ao crescimento econômico vertiginoso (o chamado "milagre chinês"). Em contrapartida, houve um reforço da autoridade do Partido Comunista, com a supressão de qualquer dissidência política organizada, garantindo a permanência do regime unipartidário. O desenvolvimento econômico passou a ser o principal pilar de legitimidade do regime.