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Questão 4 Fuvest 2026 - 2ª fase - dia 2

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Questão 4

Universidade Medievais

“O meu ensino recebeu tanta força e autoridade que aqueles que anteriormente aderiam com mais veemência àquele nosso mestre, e que molestavam ao máximo o meu ensino, acorreram em revoada às minhas aulas, e aquele mesmo que havia sucedido ao meu mestre na escola-catedral de Paris me ofereceu o seu lugar, a fim de que aí mesmo, junto com os outros, ele se inscrevesse entre os meus alunos, onde antes florescera aquele que fora o seu e o meu mestre. No entanto, não é fácil exprimir como, poucos dias depois de eu aí reger a cadeira de dialética, meu mestre começou a consumir-se de inveja, e com que sofrimento se atormentava, de tal modo que, não sustentando por muito tempo o ardor da miséria que o dominara, empreendeu astutamente conseguir a minha remoção. Mas como não tinha motivo para agir contra mim abertamente, resolveu privar da escola, sob a acusação de crimes detestáveis, aquele que me cedera o seu lugar de professor e que foi substituído na sua função por um outro que fora outrora meu rival. Então voltei a Melun e aí estabeleci a minha escola como antes, e quanto mais claramente a sua inveja me perseguia tanto mais autoridade ele me proporcionava.”

ABELARDO, Pedro. “A história das minhas calamidades: carta autobiográfica”. In: Os pensadores. 2ª ed. São Paulo: Abril, 1979, tradução: Ruy Afonso da Costa Nunes.

Abelardo (1079-1142) foi um dos iniciadores do movimento que deu origem à Universidade de Paris. Como demonstra o excerto apresentado, ocorreu um desenvolvimento espontâneo de escolas, que foi determinante para a consolidação das primeiras universidades europeias na Baixa Idade Média. Considerando o excerto,

a) apresente uma característica das formas de transmissão de conhecimento na Baixa Idade Média, período no qual esse texto foi escrito.

b) explique o grau de autonomia das universidades medievais, frente às demais instâncias de poder na Baixa Idade Média.

c) é possível afirmar que as universidades se estruturavam em torno da autoridade intelectual de um mestre? Justifique sua resposta.



Resolução

A questão exige a análise do excerto de Pedro Abelardo e a conexão de seu conteúdo com o contexto das universidades medievais, abordando aspectos de sua formação, autonomia e estrutura de ensino.

a) Uma característica fundamental da transmissão do conhecimento na Baixa Idade Média, evidenciada pelo texto, é o desenvolvimento e a mobilidade das escolas em torno da autoridade de mestres notáveis. O excerto narra como o ensino de Abelardo ganhou força e como, ao ser forçado a se retirar de Paris, ele simplesmente "voltou a Melun e aí estabeleceu a sua escola como antes". Isso demonstra que o ensino não estava rigidamente preso a um edifício ou instituição fixa, mas sim atrelado à presença e ao prestígio do Mestre (a Magister). O conhecimento era transmitido em um ambiente de aprendizado que florescia a partir da reputação e da capacidade de atrair alunos, muitas vezes em escolas catedrais ou monásticas que se tornavam centros de ensino superior.

b) As universidades medievais, em seu processo de formação na Baixa Idade Média, buscavam e frequentemente conquistavam um grau significativo de autonomia em relação às instâncias de poder circundantes, que eram primariamente a Igreja (bispos e clero local) e o poder secular (reis ou nobres locais), que exerciam influência diretamente sobre as universidades, seja através dos mestres, muitos oriundos da própria Igreja, seja a partir de recursos que reis e nobres destinavam às instituições, na forma de mecenato ou não.

Essa autonomia, quando efetiva, era formalizada através de cartas-fórum (ou cartas de privilégios) concedidas pelo Papa ou pelo Rei. Esses documentos garantiam às universidades, entendidas como universitas (corporações ou guildas de mestres e/ou estudantes), liberdade de jurisdição própria, liberdade para a auto-administração, inclusive, em relação ao currículo e isenções de impostos e taxas.

c) Sim. A justificativa reside na própria natureza do surgimento dessas instituições:

Origem nas escolas do Mestre: as primeiras universidades, como a de Paris (mencionada no texto), evoluíram a partir de escolas catedrais ou livres. O ensino era centrado na figura do Mestre (o Magister), que detinha o direito de ensinar (a licentia docendi), frequentemente outorgado pelo Bispo ou Chanceler.

A atração pelo renome: como o excerto demonstra claramente, o sucesso e a força de um ensino eram diretamente proporcionais à autoridade intelectual e à reputação do mestre. Abelardo relata que seus opositores corriam para se inscrever em suas aulas. A capacidade de um mestre de atrair um grande número de alunos era o fator que impulsionava o crescimento de uma escola para o nível de universidade, pois os estudantes formavam uma comunidade (uma universitas) em torno desse centro de excelência.

Luta por liberdade: a estrutura corporativa da universidade (a união de mestres e estudantes) surgiu, em parte, para proteger a liberdade de ensino e de aprendizado do mestre, assegurando que sua autoridade intelectual não fosse facilmente suprimida por poderes externos (como o eclesiástico local ou o poder secular), como o próprio texto sugere ser a intenção do seu antagonista.

Portanto, a autoridade intelectual do mestre era o catalisador, o núcleo em torno do qual a corporação (a universitas) se formava e buscava sua autonomia institucional.