A seguir, encontram-se 6 textos que compõem a coletânea de apoio para 2 propostas de redação, das quais apenas uma deverá ser escolhida.
Texto 1:
W. comenta que, durante a guerra, ele e outros prisioneiros foram escalados para limpar um hospital de campanha nos arredores da cidade de Lviv, na atual Ucrânia. Lá chegando, ele foi levado ao quarto de um jovem oficial nazista que, gravemente ferido e ciente da proximidade da morte, desejava pedir perdão a um judeu pelos crimes que havia cometido contra membros da comunidade judaica.
Na ocasião, chocado com a confissão do nazista e sem saber se aquilo tudo não era uma armadilha, o autor deixou o quarto em silêncio. Anos mais tarde, porém, ao refletir sobre o episódio, ele resolveu questionar alguns dos seus conhecidos: "E você, o que teria feito no meu lugar?".
Entre os comentários ao relato de W., o meu predileto foi escrito pelo filósofo H., amplamente reconhecido pelo seu ativismo em prol dos direitos civis nos Estados Unidos das décadas de 1950 e 1960.
Em resposta a W., H. escreve que não teria perdoado o oficial nazista. No entanto, o que mais me chamou atenção no texto de H. não foi exatamente a sua conclusão, mas a maneira como ele construiu o seu raciocínio, utilizando-se do mesmo gênero textual de W., isto é, a partir de uma narrativa.
Antes de dizer o que ele teria feito no lugar do sobrevivente, H. relata uma situação vivida por S. (1853-1918), o rabino de Brest, na atual Belarus, muito admirado tanto pela sua afabilidade quanto pelo seu grande conhecimento do Talmud.
Certa vez, em um trem que partia lotado e Varsóvia para Brest, o rabino sentou-se junto a um grupo de caixeiros viajantes que passava o tempo a jogar cartas. Um deles, incomodado pela postura de S., que nunca havia jogado baralho e se recusava a participar das apostas, resolveu enxotar o rabino do vagão.
Sem conseguir encontrar outro assento vago, S. passou horas em pé até alcançarem Brest. Já na cidade, para a surpresa do caixeiro-viajante, que ignorava a sua identidade, o rabino foi recebido por uma multidão de admiradores.
Ao tomar conhecimento de que o homem que ele havia agredido era o rabino de Brest, o caixeiro-viajante apressou-se em lhe pedir desculpas, mas todos os seus pedidos e promessas de caridade foram refutados pelo rabino.
Vendo que o caixeiro-viajante estava claramente angustiado com toda aquela situação, o filho mais velho de S.resolveu questionar o pai sobre a dureza d sua decisão, ao que o rabino respondeu: "Meu filho, eu não tenho condições de perdoá lo. Ele não sabia quem eu era. Ele ofendeu um homem comum. Deixe que o caixeiro-viajante vá até ele e lhe peça perdão".
Para H., essa anedota nos ensina que ninguém tem o direito de perdoar uma ofensa cometida contra outra pessoa. Há, no entanto, algo de extraordinário na maneira como ele opta por também contar uma história para comunicar o seu posicionamento. Isto é assim pois uma narrativa possui espaços vazios e inconsistências que abrem margem para a discordância.
Juliana de Albuquerque. “Súplica de oficial nazista provoca reflexão sobre limites do perdão”. Folha de São Paulo. 03.04.2025. Adaptado.
Texto 2:
O rancor do pai veio à tona mais forte ainda, compareceu inteiro, profundo. Culpou seu José não pelo que ele, Venâncio, tinha feito, mas elo que ele era. Por não ter escapado do que viveu, não ter se transformado em outra coisa. Tentava se defender, argumentava consigo mesmo que não tinha escolhido jogar o filho longe, não tinha era sido capaz de não jogar. Maldito. A liberdade é uma conversa fiada, é palavra de efeito, sempre no meio de uma frase para impressionar os desatentos, no fundo estamos presos à incapacidade de ser outra coisa diferente do que somos,do que a história da gente tramou. Queria uma saída, divagava. Apertou o filho nos braços e implorou a Deus pela vida dele. O que ele tinha feito não tinha perdão. Negociou. O perdão não existe justamente para perdoar o imperdoável? As bobagens, os pequenos atritos, os erros aceitáveis não precisam tanto de perdão, basta uma boa vontade, um pouco de amor e tempo, e tudo se dissolve.
Carla Madeira. Tudo é rio.
Texto 3:
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen. Mar novo.
Texto 4:

Foto: Abdel Kareem Hana/AP. Cessar-fogo em Gaza permite o regresso à casa.
Texto 5:
Nosso lar se enfeitou
A esperança germinou
Ah, tem muita flor pra todo lado
Pra curar a minha dor
Procurei um bom doutor
Me mandou beijar teu beijo mais molhado
Seja do jeito que for
Eu te juro meu amor
Se quiser voltar, tá perdoado!
Arlindo Cruz. Tá perdoado.
Texto 6:
Não me queixo; nunca me queixei de cousa nenhuma: quando estimo alguém, perdoo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é impossível; está nas tuas mãos.
Machado de Assis. Iaiá Garcia.
PROPOSTA 1
Redija um texto dissertativo-argumentativo, no qual seja exposto seu ponto de vista sobre o tema: O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado.
PROPOSTA 2
Redija uma carta a uma personagem hipotética que o(a) tenha acusado falsamente da prática de um ato moralmente reprovável, explicando as razões pelas quais você lhe concede ou não o perdão. Sua redação deve conter, necessariamente, as partes que compõem a estrutura de uma carta. ATENÇÃO: assine sua carta com o termo “Nome”.
Instruções:
• Escolha uma das propostas e marque, na folha de redação, a opção selecionada.
• A redação deve ser redigida de acordo com a norma padrão da língua portuguesa.
• Escreva com letra legível e não ultrapasse a quantidade de linhas disponíveis na folha de redação.
Para o processo seletivo de 2026, a Fuvest apresenta duas propostas de redação, entre as quais o candidato deveria escolher uma para desenvolver. A primeira solicita a escrita de um texto dissertativo-argumentativo, com a frase-tema “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”.
Dentre as possibilidades de projeto de texto, era possível dissertar sobre um dos lados da discussão (o condicionamento ou a limitação), a partir da indicação de o que leva o perdão a ser um ato condicionado, (dependente de uma condição, de uma variável) ou limitado (restrito, reduzido). Vale acrescentar a possibilidade de um projeto de texto que sustentasse que o perdão é limitado exatamente por ser condicionado, ou seja, dependente de um contexto específico, como onde, quando ou quem estão relacionados ao evento que levaria à necessidade de perdão, assim, o que o limitaria seriam exatamente as condições envolvidas. Por outro lado, não seria inviável um outro percurso argumentativo que sustentasse a ideia de que o perdão deve ser irrestrito, contestando, então, tanto o condicionamento, quanto a limitação. Em todos os casos, seria importante apontar recursos objetivos - como exemplos, comparações ou referências socioculturais - que pudessem sustentar o posicionamento adotado.
A segunda proposta, por sua vez, exige a elaboração de uma carta em que um enunciador hipotético deveria escrever para um interlocutor igualmente hipotético, perdoando-lhe ou não por tê-lo falsamente acusado de um ato moralmente reprovável, que também não é definido pelo enunciado. Dessa forma, caberia ao candidato um trabalho narrativo-dissertativo. A parte narrativa refere-se à contextualização de quem seriam os interlocutores da carta, bem como do ato moralmente reprovável e da falsa acusação; já a dissertativa, aos porquês de o remetente ter optado por perdoar ou não o destinatário.
Para auxiliar o candidato em seu processo de escrita, o Texto 1 da coletânea, de Juliana de Albuquerque, discute condições e limites do perdão, a partir do relato de um sobrevivente judeu do Holocausto que silencia diante do pedido de perdão de um oficial nazista moribundo. A reflexão é aprofundada pela posição do filósofo H., que argumenta, por meio de uma narrativa, que muitas vezes o perdão não é uma ação que cabe a quem foi supostamente agredido, afinal o rabino mencionado pelo texto não se sente no direito de perdoar o caixeiro-viajante que lhe ofendeu sem saber quem ele verdadeiramente era, tomando-lhe como um homem comum, quando, na verdade, era uma figura de relevância social. Conclui-se, assim, que ninguém tem a obrigação de perdoar uma ofensa cometida contra outra pessoa. Dessa forma, o texto enfatiza o caráter ético do perdão, e sua não obrigatoriedade.
O trecho do romance “Tudo é Rio”, de Carla Madeira, compõe o texto 2 e explora os sentimentos do personagem Venâncio, destacando o rancor, a culpa e a reflexão sobre o perdão. O personagem constata que o perdão não existe e não é necessário para situações levianas, pequenos erros, mas para casos em que o se fez é justamente imperdoável.
O poema “Mar Novo”, de Sophia Andresen (texto 3), conduz a uma reflexão de valorização da retidão moral, da coragem e da recusa à hipocrisia, mesmo diante de riscos. Exalta a postura de quem não negocia princípios, sugerindo que certos valores não devem ser relativizados ou “comprados”, a exemplo do perdão.
O texto não-verbal 5, de Abdel Hana, é uma imagem jornalística que mostra o retorno de pessoas às suas casas após um cessar-fogo em Gaza, evocando temas como conflito, sofrimento coletivo, reconciliação e a possibilidade — ainda frágil — de reconstrução após a violência, além do próprio perdão.
A letra da canção “Tá perdoado”, de Arlindo Cruz, compõe o excerto 5 da coletânea e apresenta o perdão como um gesto afetivo, generoso e acolhedor, associado ao amor e à reconciliação. O perdão aparece como possibilidade de recomeço, estar atrelado a condições ou mesmo a limites.
Por fim, o texto 6 é uma citação de Machado de Assis que também associa o perdão ao vínculo afetivo: perdoa-se quem se estima; quando não há estima, resta o esquecimento. O perdão é apresentado como algo raro, difícil, mas possível e dependente da vontade individual.
Para a proposta 1, o Texto 1 pode ser usado como base central da argumentação, defendendo que o perdão tem limites éticos e morais, especialmente quando envolve crimes graves, indicando a ideia de que o perdão não é um dever e pode depender de quem foi diretamente ofendido. Já o Texto 2 serve para problematizar o conceito de perdão, mostrando sua complexidade emocional e moral, e pode reforçar a tese de que o perdão não é simples nem automático, sendo atravessado por culpa, dor e conflitos internos. O Texto 3, por sua vez, pode fundamentar a defesa de que há princípios inegociáveis, reforçando a noção de que nem tudo deve ser perdoado em nome da conveniência ou da paz aparente. O Texto 4 funciona como exemplo contextual contemporâneo, permitindo discutir se o perdão coletivo, após conflitos armados, é possível ou se ele exige justiça, memória e reparação — logo, condições. Em sequência, o Texto 5 pode ser utilizado como contraponto, mostrando uma visão mais afetiva e incondicional do perdão, que pode ser debatida criticamente ao longo do texto. Por último, o Texto 6 ajuda a reforçar a tese de que o perdão é individual e condicionado ao vínculo emocional, sustentando a ideia de que não é universal nem obrigatório.
Em relação à proposta 2, o Texto 1 pode embasar a justificativa racional e ética para conceder ou negar o perdão, argumentando que certas ofensas não podem ser perdoadas por não serem meros equívocos, mas atos morais graves. O Texto 2 pode enriquecer a carta ao expressar conflito interno, ambivalência ou sofrimento emocional diante da acusação injusta, humanizando o u da carta. O Texto 3 serve para sustentar uma postura firme e íntegra do remetente, que se recusa a perdoar se isso significar trair seus valores ou aceitar uma injustiça. O Texto 4 pode ser citado como analogia, comparando a falsa acusação a conflitos maiores e refletindo sobre a dificuldade da reconciliação sem verdade ou reconhecimento do erro. O Texto 5 é especialmente útil caso o autor da carta decida conceder o perdão, apresentando-o como um gesto generoso, emocional e voltado à superação da dor. O Texto 6 pode ser usado para explicar que o perdão depende da relação afetiva existente e da disposição pessoal de quem foi ferido, reforçando a legitimidade da decisão tomada.
Logo, nota-se que a coletânea, embora complexa e exigente de uma leitura atenta e aprofundada, oferecia encaminhamentos e recursos para a execução das duas propostas.