É melhor falar sobre o tempo para não arrumar briga com ninguém
Claudio Manoel
Falar sobre o tempo já virou até clichê do que os gringos chamam de "small talk", que pode ser traduzido como conversinha, conversa fiada ou papo furado, mas serve para quebrar os incômodos do silêncio, preâmbulo ou ponte para qualquer outro assunto e, atualmente, como um possível refúgio.
Afinal, qualquer tema, mote ou troco podem ser problematizados. Para não se meter em confusão, melhor é deixar quieto, falar sobre coisa alguma, tocar a bola para o lado, tentar ficar bem com todo mundo, mesmo que "todo mundo" seja, cada vez mais, figura de retórica. A época é dos nichos, das bolhas, cada um nos seus quadrados e tacando pedra nos vizinhos.
Por isso, é melhor ficar falando sobre o tempo para não arrumar briga com ninguém.
A não ser, claro, que logo apareça alguém te chamando de "fasciste" por falar do clima sem nem sequer mencionar o "racismo climático" ou demonstrar alguma preocupação ou consciência de como os problemas ambientais não atingem todos da mesma forma, e que raça e classe social afetam, significativamente, quem sofre mais com as consequências das crises climáticas.
Vixe! E agora? A gente corre para onde? Como se proteger? O jeito é ficar cumprindo tabela, se dedicando à tradicional prática do enchimento de linguiça.
Aff! Cansa, né? Mas não adianta perder a calma. Tem que ter paciência. Reagir ou, justificadamente, xingar ou mandar tomar naquele lugar, é pior.
Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/. Adaptado.
a) Explique por que, no texto, o autor diz que “todo mundo” é cada vez mais uma “figura de retórica”.
b) Explique o significado das expressões metafóricas utilizadas no fragmento “O jeito é ficar cumprindo tabela, se dedicando à tradicional prática do enchimento de linguiça”.
a) O autor afirma que a ideia de "todo mundo" é cada vez mais uma "figura de retórica" (expressão que significa algo que não corresponde à realidade, apenas uma forma de falar) devido à polarização social e à fragmentação da sociedade em nichos e bolhas. O texto indica que, em vez de uma comunidade ampla e unificada ("todo mundo"), a sociedade atual está dividida em grupos específicos bem menores ("nichos", "bolhas"). Nesses espaços, há um fechamento e, muitas vezes, um antagonismo ("cada um nos seus quadrados e tacando pedra nos vizinhos"). Assim, a expressão “todo mundo” deixa de representar um conjunto verdadeiramente representativo de pessoas e passa a funcionar apenas como um recurso discursivo, sem correspondência concreta na realidade social marcada pela polarização e pelo isolamento de grupos.
b) As expressões cumprir tabela e encher linguiça são metafóricas e se referem a ações superficiais e vazias, executadas por obrigação ou como fuga de um confronto maior. Cumprir tabela é expressão oriunda do meio esportivo (futebol) e significa jogar de forma morna, sem empenho, apenas para cumprir o cronograma ou a obrigação do jogo, sem buscar a vitória ou um resultado significativo. No contexto do texto, refere-se a participar de uma conversa ou situação de maneira passiva e sem engajamento real, apenas para preencher o tempo ou evitar problemas. Já encher linguiça é uma metáfora para a prática de adicionar conteúdo irrelevante, desnecessário ou superficial a um discurso, texto ou conversa com o único propósito de aumentar o volume ou o tempo, sem agregar valor ou substância. No trecho, significa gastar tempo com conversas vazias ("small talk" sobre o tempo) como uma estratégia de proteção para não se envolver em temas polêmicos, como o "racismo climático". Em resumo, a passagem sugere que, diante da dificuldade de discutir temas complexos sem gerar conflito, a saída encontrada pelo indivíduo é a inação superficial e o discurso vazio, apenas para cumprir um papel social ou evitar o confronto. No texto, ambas as metáforas indicam a adoção de uma postura evasiva e conformista, em que se prefere manter conversas inofensivas e superficiais a enfrentar debates complexos ou potencialmente conflituosos.