Para responder às questões, leia um trecho do prefácio do livro Crônicas indígenas para rir e refletir na escola, do escritor indígena Daniel Munduruku.
O apanhador de absurdos
O melhor remédio para as dificuldades da vida costuma ser o bom humor. Aprendi isso com um filósofo grego que costumava usar a ironia como antídoto contra aqueles que não tinham argumentos para dialogar. Sócrates era seu nome, e ele se autoproclamava “parteiro das ideias”, porque acreditava que era preciso extrair o não saber das pessoas para que finalmente pudessem ficar livres para conhecer a verdade.
Tendo passado por muitas experiências, boas e ruins, acumulei vivências que foram me ensinando como sobreviver numa realidade tão deliciosamente contraditória como a nossa: patrícios que se amam e se odeiam num mesmo movimento histórico e existencial. Histórico porque todos vivemos no mesmo tempo, num espaço único, numa mesma canoa; existencial porque a vida é igualmente importante para uns e para outros, mas a ela não é dada a mesma importância, de modo que há pessoas que acham que merecem mais vida que outras, como se umas recebessem privilégios do Universo em detrimento de outras.
Talvez por isso quis fazer um caminho como observador dos absurdos, especialmente no que diz respeito aos povos indígenas, meu lugar de fala. Ao perceber as várias “ignorâncias” que as pessoas não percebem que cometem, fui me especializando em registrar e, a princípio, rir delas para em seguida fazer as pessoas rirem daquilo que não sabem, mas acham que sabem porque só aprenderam aquilo e, quando a gente ouve a mesma história o tempo todo, a tendência da gente é acreditar que outra história não é possível. É por isso que é bom rir dos absurdos que presenciamos, para que nossa mente fique alerta, atenta, aberta
Para que servem estes pequenos textos que aqui lhes apresento? Para que possamos nos espantar com aquilo que nos parece óbvio, mas não é. Não é, porque pouco sabemos sobre essas populações. O que nos ensinaram tem a ver com a tal da história única contada por uma voz estridente que nunca nos ofereceu outras versões e, por conta disso, acabamos por aceitar o que nos era ensinado. Dessa maneira, acabamos ficando apenas com as sombras e nunca vemos a realidade, como outro filósofo, Platão, nos mostrou. Ele criou uma história que chamou de Mito da Caverna. Nessa narrativa, pessoas viviam presas dentro de uma caverna. Elas viviam acorrentadas de costas para a saída e podiam ver apenas as suas próprias sombras e as que passavam pelo lado de fora projetadas na parede. As sombras eram tudo o que existia. Na cabeça delas, a luz que vinha de fora era só uma ficção. Foi preciso libertá-las das correntes para que pudessem olhar a realidade de frente. No começo, elas sofreram com o brilho do Sol. Depois foram aprendendo a andar pelo mundo sempre desconfiando das coisas que lhes eram ditas. Isso é aprender.
(Crônicas indígenas para rir e refletir na escola, 2020. Adaptado.)
a) Quem é “o apanhador de absurdos” a que o título do prefácio faz referência? E o que são esses “absurdos”?
b) Cite do segundo parágrafo uma palavra empregada em sentido figurado. Justifique sua resposta.
a) O "apanhador de absurdos" mencionado pelo título é o enunciador do prefácio, o que se confirma pelo trecho ("Talvez por isso quis fazer um caminho como observador dos absurdos"), do 3o parágrafo. Já os "absurdos" designam as crenças individuais ou sociais embasadas em histórias únicas - versões unilaterais de uma história -, que impedem a compreensão do todo, induzindo a uma parcialidade. O autor exemplifica essa situação mencionando como a nossa sociedade reverberou a história indígena a partir da visão dos colonizadores, dando pouca voz aos próprios povos originários.
b) O termo "canoa" é utilizado em sentido figurado, uma vez que literalmente significa uma espécie de embarcação, algo que se utiliza para o transporte. Contudo, no texto, a palavra indica o espaço que dividimos, onde todos vivemos.