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Questão 1 Unesp 2026 - 2ª fase

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Questão 1

Revolução Industrial

Toda avaliação acerca da qualidade de vida requer antes a determinação da experiência de vida como um todo, relacionada com as múltiplas satisfações ou privações, tanto culturais quanto materiais, do povo em questão. [...]

Todo processo de industrialização é necessariamente doloroso, porque envolve a erosão de padrões de vida tradicionais. Contudo, na Grã-Bretanha, ele ocorreu com uma violência excepcional, e nunca foi acompanhado por um sentimento de participação nacional num esforço comum, ao contrário do que se pode observar em países que atravessam uma revolução nacional. Sua única ideologia foi a dos patrões. [...]

O que ocorreu, na realidade, foi uma violência contra a natureza humana. De acordo com uma certa perspectiva, esta violência pode ser considerada como o resultado da ânsia pelo lucro, numa época em que a cobiça dos proprietários dos meios de produção estava livre das antigas restrições e não tinha ainda sido limitada pelos novos instrumentos de controle social. [...]

Não foram nem a pobreza, nem a doença os responsáveis pelas mais negras sombras que cobriram os anos da Revolução Industrial, mas sim o próprio trabalho.

(Edward P. Thompson. A formação da classe operária inglesa, 1987.)

a) Explique a conclusão presente no último parágrafo do excerto e a justifique a partir do que é dito no terceiro parágrafo.

b) Cite dois exemplos de “privações” ou de “erosão de padrões de vida tradicionais” ocorridos durante a Revolução Industrial inglesa no século XVIII.



Resolução

a) A conclusão presente no último parágrafo é que o fator principal responsável pelas piores consequências sociais ("as mais negras sombras") da Revolução Industrial não foi a miséria econômica (pobreza) ou os problemas de saúde (doença), mas sim a própria natureza do trabalho imposto aos operários, ou seja, a experiência laboral em si. O terceiro parágrafo justifica essa ênfase no trabalho ao identificar a causa dessa experiência laboral deletéria como uma "violência contra a natureza humana". Esta violência é atribuída à "ânsia pelo lucro" dos proprietários dos meios de produção (empresários), que agiam sem as restrições sociais ou regulamentações que viriam a surgir posteriormente. Assim, o trabalho se tornou desumano e opressor, porque era estruturado unicamente pela lógica do lucro capitalista, livre de qualquer limite social, resultando na exploração extrema. Sem as amarras de alguma legislação que os impedisse de explorar os trabalhadores, os donos das fábricas pagavam salários baixíssimos e impunham longas jornadas de trabalho, que chegaram a 16h por dia, fazendo uso inclusive de mão de obra de crianças com menos de 10 anos.

b) A Revolução Industrial, com sua lógica de produção fabril, desmantelou as formas de vida e trabalho pré-industriais, gerando diversas privações e a erosão dos padrões tradicionais. Dois exemplos são:

  • A disciplina fabril e a jornada de trabalho extenuante: a substituição do trabalho artesanal ou doméstico (no qual havia maior controle sobre o tempo e o ritmo) pelo trabalho na fábrica impôs um ritmo ditado pela máquina e pelo relógio. As jornadas de trabalho eram longas, frequentemente de 12 a 16 horas diárias, seis dias por semana, sob vigilância rígida, o que era uma grande privação em relação à autonomia anterior, sendo que as primeiras leis que impunham restrições a isso datam apenas da década de 1840, fruto do movimento cartista..
  • A inserção de mulheres e crianças no mercado de trabalho sob condições degradantes: a necessidade de mão de obra barata e dócil levou à utilização maciça de mulheres e crianças nas minas e fábricas, muitas vezes realizando as tarefas mais perigosas e recebendo salários muito inferiores aos dos homens. Isso representou uma erosão do padrão familiar tradicional e uma privação severa para essas camadas, que eram submetidas a um trabalho exaustivo e insalubre desde muito cedo. Apenas em 1842, a "lei de minas" proibiu o trabalho de crianças abaixo de 10 anos e, em 1847, surgiu a lei que limitava a jornada de trabalho máxima por dia em 10h.