Em 1571, a fundação de Manila pelos espanhóis mudou o ritmo do comércio global. O assentamento logo se tornou uma metrópole e um importante ponto de conexão entre a Ásia e as Américas. Os bens, como especiarias e seda, começaram a se mover pelo Pacífico sem passar primeiro pela Europa. A prata era um dos bens que não pagava tributos nessa rota. A mina de Potosí, nos Andes, na atual Bolívia, mostrou ser a maior descoberta de jazida de prata da história, respondendo por mais da metade da produção global durante mais de um século. Mas não foi só na Europa que a fase áurea despontou. Grandes programas de construções foram empreendidos pelo mundo otomano, dos Bálcãs ao Norte da África. Na Índia, construíram o Taj Mahal, o monumento mais romântico do mundo. A glória da Europa e da Índia ocorreu às custas das Américas.
(Adaptado de FRANKOPAN, P. O coração do mundo: uma nova história universal a partir da rota da seda, o encontro do Oriente com o Ocidente. São Paulo: Planeta, 2019, p. 261-268.)

a) As marcações A, B, C, D e E, no mapa ao lado, remetem a localidades mencionadas no texto, que são importantes para a compreensão do contexto descrito no século XVI. Identifique, para cada letra, no espaço de resposta, as seguintes localidades: Calicute, Istambul, Manila, Madri e Potosí. Em seguida, responda: por que Manila tornou-se estratégica para o comércio da prata pelos espanhóis? Exemplifique como o ritmo do comércio global se alterou depois de sua fundação.
b) Explique a afirmação de Frankopan de que a "glória da Europa e da Índia ocorreu às custas das Américas”, relacionando-a com o início da globalização dos mercados.
a) O texto contextualiza o surgimento de uma nova rota comercial transpacífica controlada pela Espanha, ligando a fonte de prata nas Américas (Potosí) ao centro de distribuição asiático (Manila), que negociava especiarias e seda (Calicute é um importante porto de especiarias; Istambul e Madri são centros de poder e consumo citados).
As localidades são identificadas com base no contexto do texto e em sua posição geográfica no mapa do comércio global do século XVI:
A importância estratégica de Manila era estabelecer uma conexão direta e sem precedentes entre as Américas e a Ásia. Essa rota permitiu que a prata extraída em Potosí (e outras minas americanas) fosse transportada diretamente através do Oceano Pacífico para a Ásia, contornando a longa e custosa rota que passava primeiro pela Europa e, em seguida, pelo Mediterrâneo ou pelos caminhos controlados pelo Império Otomano (Istambul) e pelos portugueses na Índia (Calicute).
A menção de que a prata nessa rota não pagava tributos (ou, pelo menos, menos tributos) reforça sua importância, pois reduzia os custos e aumentava os lucros da Coroa Espanhola e dos comerciantes envolvidos na troca do metal precioso pelas valiosas mercadorias asiáticas (seda, especiarias, porcelana, etc.).
A fundação de Manila e a consolidação da rota da prata alteraram o ritmo do comércio global ao promoverem a primeira integração econômica verdadeiramente mundial. O principal exemplo dessa alteração é o estabelecimento de um circuito econômico unificado no qual a prata americana (extraída em Potosí) passou a ser a principal moeda de troca em larga escala para as mercadorias asiáticas, unindo monetariamente três continentes distantes - a América (produtora da prata), a Ásia (produtora de bens de luxo) e a Europa (organizadora e intermediária do comércio).
b) A afirmação de Frankopan de que a "glória da Europa e da Índia ocorreu às custas das Américas" explica a natureza da emergente globalização dos mercados no século XVI, baseada na exploração colonial.
A "glória" refere-se à grande prosperidade e capacidade de investimento que ocorreram na Europa e na Índia (e no mundo otomano, como o texto menciona). A enorme injeção de prata americana no mercado global. Na Europa o fluxo de prata financiou o crescimento do capitalismo mercantil, permitindo que as potências europeias (principalmente a Espanha) sustentassem seus impérios, financiassem guerras e, sobretudo, comprassem em grande volume as mercadorias de luxo asiáticas. Isso gerou acumulação de capital e um surto de construções e riqueza (a "fase áurea"). Na Índia o grande influxo de prata americana tornou-se o principal meio para o subcontinente indiano (e a China) adquirir o metal, que era altamente valorizado e escasso localmente. Essa entrada de riqueza impulsionou economias locais, financiou grandes projetos arquitetônicos (como o Taj Mahal, mencionado no texto) e fortaleceu a elite local que controlava o comércio.
Essa prosperidade foi sustentada pelo custo humano e material imposto às Américas, o que configura a base da exploração colonial. As Américas foram reduzidas a uma fonte de extração, onde a prata, especialmente de Potosí, foi extraída por meio do trabalho forçado (como a Mita) imposto às populações indígenas, resultando em condições de trabalho desumanas, altas taxas de mortalidade e o declínio demográfico das sociedades americanas. O vasto montante de prata e outros recursos naturais foi sistematicamente drenado dos territórios coloniais americanos e transferido para a Europa e, subsequentemente, para a Ásia, sem que as populações e os territórios americanos se beneficiassem proporcionalmente. A riqueza gerada pela prata não permaneceu na América para fomentar seu próprio desenvolvimento, mas sim a "glória" dos centros econômicos externos.
O comércio da prata (o "circuito da prata") marca o início da globalização dos mercados porque ele estabeleceu a primeira cadeia de suprimentos verdadeiramente intercontinental, onde a demanda (por bens asiáticos) era ligada diretamente à produção (de prata americana) através de um sistema de trocas e fluxos monetários que abrangia o planeta. A prata funcionou como o primeiro dinheiro universal, conectando o Atlântico e o Pacífico, e integrando os mercados de trabalho e produção das Américas, Europa e Ásia em um único sistema econômico globalizado, embora profundamente desigual e baseado na exploração.