Leia o excerto a seguir para responder aos itens (a) e (b).
“Penetramos na sala contígua, onde parei um bocado, a ver os retratos de família. O Mestre não rompera com a tradição, que os quer na sala de visitas. Aí os tinha, e não no seu gabinete de trabalho. Havia uma galeria de mais de seis veneráveis retratos de homens de outros tempos, agaloados*, uns, e cheios de veneras**, todos; e de algumas senhoras. Sem bigodes, de barba em colar, com um olhar imperioso e sobrecenho carregado, um deles me pareceu que ia erguer o braço de sob a moldura dou rada, para sublinhar uma ordem que me dizia respeito. Cri que ia ordenar: metam-lhe o bacalhau***.”
* agaloado = que tem a farda guarnecida de galões, distintivos dourados nos ombros.
** venera = medalha
*** bacalhau = chicote, açoite
(BARRETO, L. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. São Paulo: Edição da Revista do Brasil, 1919, p. 95.)
a) A partir desse excerto e da leitura da obra, indique a origem social de Gonzaga de Sá e de Augusto Machado. Justifique sua resposta com base no excerto.
b) Que percepção cada personagem exprime em relação ao passado ou ao futuro do Brasil? Recupere dois episódios do romance que fundamentem sua resposta, sendo um para cada personagem
a) Gonzaga de Sá pertence a uma família influente do Segundo Reinado, descendente dos próprios fundadores da cidade do Rio de Janeiro, o que indica uma origem social de elite ou de classe alta. O trecho apresentado descreve uma "galeria de mais de seis veneráveis retratos" de antepassados de Gonzaga na sala de visitas. Esses homens são retratados como "agaloados" (com galões em farda) e "cheios de veneras" (medalhas), sugerindo posições de destaque, autoridade e prestígio social e militar no período monárquico. A presença de um ancestral com "olhar imperioso" que o narrador imagina "ordenar: metam-lhe o bacalhau" (chicote) é uma forte alusão ao poder e à mentalidade escravista da elite daquele período. Augusto Machado é um jovem culto de origem pobre, e afrodescendente, o que o situa socialmente como um marginalizado ou subalterno, apesar de sua instrução. A reação de Augusto ao retrato, imaginando a ordem de "metam-lhe o bacalhau", revela uma associação imediata e pessoal do poder ancestral da família de Gonzaga com a violência e a opressão da escravidão sofrida por seus antepassados. Ele, como afrodescendente, sente essa figura de autoridade como uma ameaça que lhe diz respeito, indicando que sua experiência de vida é a do oprimido, diametralmente oposta à dos ancestrais de Gonzaga.
b) Gonzaga olha para o passado com nostalgia pelo Rio de Janeiro antigo que está sendo destruído no contexto das reformas urbanas do início do século XX. Ele lamenta a destruição da antiga cidade e de suas memórias causada pelas reformas que visavam uma identidade "europeizada" e moderna, mas que resultaram na demolição de locais históricos e no deslocamento das classes populares. Ele se dedica a fixar as imagens do espaço colonial que desaparecia gradualmente, mostrando sua aversão ao modo como a modernidade republicana estava sendo imposta, apagando o passado e excluindo os mais pobres. Por outro lado, a personagem manifesta um otimismo em relação ao futuro ao investir na educação de Manuel Aleixo, filho do falecido compadre Romualdo. Ao se encarregar da formação do menino, acreditando em seu potencial, Gonzaga expressa sua crença na educação como meio de desenvolvimento do ser humano, o que evidencia um olhar esperançoso em relação ao porvir.
Augusto Machado, como afrodescendente instruído, é cético em relação ao futuro e aos benefícios do conhecimento em uma sociedade racista. Ao observar o projeto de Gonzaga de educar o menino, Augusto expressa ceticismo e pessimismo. Ele teme que o conhecimento apenas traga mágoa e inadaptação, pois ele próprio sabe que, mesmo sendo instruído, Aleixo, na condição de afrodescendente, não teria espaço na sociedade racista e estaria sujeito ao preconceito. Contudo, na conclusão do romance, o narrador manifesta uma aposta otimista no futuro ao perceber a educação como forma de resistência e libertação. Ele reconhece que, embora o sofrimento decorrente da percepção do racismo possa ser atroz para Manuel Aleixo, os conhecimentos obtidos com o hábito da análise e da reflexão podem servir como impulso para que o jovem realize grandes atos ou grandes obras, as quais contribuirão para as futuras conquistas de muitos jovens negros e pobres que vierem depois. Dessa forma, o jovem narrador ressignifica a mágoa individual, transformando-a em uma possibilidade de ação efetiva para a diminuição das injustiças e conquista de um futuro melhor.