Em meados do século XIX, Nísia Floresta publicou no Brasil seu Opúsculo Humanitário, uma ardente defesa da educação como meio para eliminar os obstáculos que impediam as mulheres de contribuir, em condições de igualdade com os homens, com a sociedade brasileira. Para tanto, contrapõe o estado da educação das mulheres nas nações ditas civilizadas e cultas ao péssimo estado da educação, pública e privada, religiosa e laica no Brasil, assumindo que a educação é uma expressão do grau de civilização das nações e muito influente sobre sua moralidade. Meio século mais tarde, Émile Durkheim dedicou duas obras à educação escolar: Educação e Sociologia e A Educação Moral. Nelas, o sociólogo francês concebe a escola como um espaço de transmissão da civilização às novas gerações por meio da sua socialização nos sentimentos, ideias e valores da sociedade, além da promoção da solidariedade com as múltiplas sociedades das quais participamos e com a humanidade como um todo. Ao funcionar como uma forma de vinculação às normas sociais por meio de uma compreensão racional da moralidade que subjaz a esses sentimentos, ideias e valores, a escola seria também um espaço de produção de autonomia. Mas, para que assim seja, esses sentimentos, ideias e valores deveriam ser justificáveis exclusivamente pela razão, sem invocar princípios religiosos, que são exclusivistas. É correto afirmar que em seus escritos sobre educação, Durkheim e Floresta convergem ao
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reafirmar a importância dos valores religiosos da sociedade na educação como um projeto moralizante, ainda que critiquem a educação católica. |
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conceber a educação das mulheres como manifestação de uma lei necessária do progresso das nações, expressão do positivismo dos autores. |
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indicar a função da escola de integrar seus estudantes às normas e valores morais característicos de uma sociedade para permitir que com ela contribuam. |
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justificar uma educação escolar segregada de grupos menos integrados socialmente, como as mulheres, em virtude de normas e valores da sociedade. |
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defender uma educação com caráter cívico e nacionalista, que afirme a superioridade da nação e promova as glórias da civilização nacional. |
a) Incorreta. Durkheim defende que os valores ensinados na escola devem ter fundamento racional, não religioso, e Floresta critica a precariedade da educação religiosa no Brasil. Portanto, nenhum dos dois reafirma a centralidade de valores religiosos na formação moral.
b) Incorreta. Embora Nísia Floresta defenda a educação feminina, nada no texto indica que ela ou Durkheim interpretem a educação como expressão de uma “lei necessária do progresso” — ideia típica de um determinismo positivista de tipo comtiano. O ponto destacado em Durkheim é a função social da escola como instância de socialização e moralização racional, não a afirmação de um progresso histórico inevitável. A convergência entre os autores deve ser buscada na função integradora da educação, não em um suposto determinismo evolutivo.
c) Correta. Floresta vê a educação como instrumento de capacitação moral e social para que as mulheres contribuam para a sociedade; Durkheim entende a escola como espaço de socialização nos valores e normas coletivas. Em ambos os casos, a educação é vista como instrumento de integração social, capaz de formar indivíduos aptos a participar e contribuir para a vida coletiva. Essa função socializadora é o ponto de convergência indicado pelo texto.
d) Incorreta. Floresta luta pela inclusão das mulheres na educação, não pela segregação; Durkheim também defende uma escolarização comum que socialize todos. Assim, a alternativa contraria diretamente a posição dos autores.
e) Incorreta. Floresta critica o atraso educacional brasileiro, e Durkheim enfatiza solidariedade para além das fronteiras nacionais. Não há defesa de nacionalismo ou exaltação da superioridade da nação.