A uberização nomeia um novo tipo de gestão e controle da força de trabalho. Resultando das formas contemporâneas de eliminação de direitos, transferência de riscos e custos para os trabalhadores e novos arranjos produtivos, ela em alguma medida sintetiza processos em curso há décadas, ao mesmo tempo em que se apresenta como tendência para o futuro do trabalho. O tema ganha visibilidade com a formação de enormes contingentes de trabalhadores controlados por empresas que operam por meio de plataformas digitais. O desafio contemporâneo frente a esse novo tipo de organização envolve elementos complexos e armadilhas teórico-políticas. Reside em compreender as plataformas digitais como um novo meio poderoso pelo qual as relações de trabalho vêm se reestruturando, sem, entretanto, incorrer em um determinismo tecnológico que mistifique os processos sociais que envolvem décadas de flexibilização e transformação no trabalho, e que se materializam nas plataformas digitais, embora de forma obscura. Com base nessa perspectiva, o desafio também reside na compreensão de uma tendência que precede e ultrapassa as plataformas digitais, relacionada ao elemento central da uberização, qual seja, a consolidação e gerenciamento de multidões de trabalhadores como trabalhadores just-in-time. Essa condição do trabalho envolve um novo tipo generalizável de remuneração por peça que conserva sua centralidade nas formas de exploração capitalistas, mas atualiza seus elementos, demandando a compreensão das permanências, transformações e tendências que se desenham no presente ou como futuro possível e provável do trabalho.
ABÍLIO, L. C. et al. “Uberização e plataformização do trabalho no Brasil: conceitos, processos e formas”. Sociologias, v. 23, n. 57, 2021.
Segundo o texto, a uberização é um processo que
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surgiu com o uso das plataformas digitais como elemento mediador que estimulou relações de trabalho cooperativo entre multidões de desempregados. |
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intensificou a informalidade e a flexibilidade nas relações de trabalho por conta dos recursos técnicos das plataformas, que acirraram a exploração capitalista. |
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libertou o trabalhador do atraso das leis trabalhistas, que impediam o empreendedor de construir novos arranjos produtivos que aumentassem sua renda. |
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partiu da regulação das plataformas digitais para instituir uma nova forma de gerenciamento da força de trabalho baseada na eliminação de direitos sociais. |
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acentuou a exploração capitalista, já que o aumento da renda do trabalhador não foi compatível com os custos das atividades profissionais realizadas por meio de aplicativos. |
O texto define a uberização como um novo tipo de gestão e controle da força de trabalho que resulta da eliminação de direitos, da transferência de riscos e custos para os trabalhadores e de novos arranjos produtivos. Ele também menciona que esse processo sintetiza a flexibilização e transformação no trabalho que vêm ocorrendo há décadas, sendo as plataformas digitais apenas o novo meio poderoso pelo qual as relações de trabalho se reestruturam. Por fim, aponta que essa condição envolve um novo tipo de remuneração por peça que mantém a centralidade das formas de exploração capitalista.
a) Incorreta. O texto afirma que a uberização "sintetiza processos em curso há décadas" e que a tendência "precede e ultrapassa as plataformas digitais," o que contradiz a ideia de que o processo "surgiu com o uso das plataformas digitais." Além disso, o texto trata da exploração capitalista e da eliminação de direitos, e não de "relações de trabalho cooperativo."
b) Correta. A alternativa está em consonância com o texto. O trecho que menciona o processo de "décadas de flexibilização e transformação no trabalho" que se materializa nas plataformas, bem como a "eliminação de direitos" e a "transferência de riscos e custos para os trabalhadores," remete diretamente à intensificação da informalidade e da flexibilidade. O texto também afirma que o processo "conserva sua centralidade nas formas de exploração capitalistas," o que é sinônimo de "acirraram a exploração capitalista." As plataformas são, de fato, o meio que permite e organiza essa intensificação.
c) Incorreta. O texto adota uma perspectiva crítica ao processo, destacando a eliminação de direitos e a exploração capitalista. A ideia de que a uberização "libertou o trabalhador do atraso das leis trabalhistas" para aumentar sua renda não é a visão ou a conclusão que o texto estabelece. Pelo contrário, o processo é descrito como um novo tipo de gestão e controle.
d) Incorreta. A uberização é um processo que envolve a eliminação de direitos, sendo o oposto de partir de uma "regulação das plataformas digitais" para instituir o gerenciamento. A eliminação de direitos é um pressuposto e um resultado do novo tipo de gestão, e não uma consequência da regulação.
e) Incorreta. Embora a alternativa esteja conceitualmente ligada à crítica da uberização (exploração capitalista), a justificativa específica de que "o aumento da renda do trabalhador não foi compatível com os custos" não é um elemento explicitamente citado no texto. O texto foca nos mecanismos estruturais da exploração (eliminação de direitos, transferência de riscos, trabalho just-in-time e remuneração por peça) e não em uma análise financeira comparativa direta.