Logo FUVEST

Questão 40 Fuvest 2026 - 1ª fase

Carregar prova completa Compartilhe essa resolução

Questão 40

Rachel de Queiroz Sociologia no Brasil Temas da Sociologia Sociologia Contemporânea

Considere os dois fragmentos a seguir:

O fundamento psicológico sobre o qual se eleva o tipo das individualidades da cidade grande é a intensificação da vida nervosa, que resulta da mudança rápida e ininterrupta de impressões [...]. Talvez não haja nenhum fenômeno tão característico da cidade grande como o caráter blasé. [...] A essência do caráter blasé é o embotamento frente à distinção das coisas [...]. Em parte por conta dessa situação psicológica, em parte em virtude do direito à desconfiança que temos perante os elementos da vida na cidade grande, que passam por nós em um contato fugaz, somos coagidos a uma reserva, em virtude da qual mal conhecemos os vizinhos que temos por muitos anos [...]. Ao mesmo tempo, essa reserva garante ao indivíduo uma espécie [...] de liberdade pessoal.

Simmel, Georg. (2005). As grandes cidades e a vida do espírito. Mana,

Trad. Leopoldo Waizbort. Adaptado.

As luzes da cidade se acendiam, as cortinas de aço das portas desciam com barulho e os caixeiros, os empregados que passavam o dia sorridentes ou abstratos, por trás dos balcões [...], se transformavam em homens misteriosos, individuais, que metiam um paletó, tinham uma casa, uma rua e iam comer o seu jantar, dormir o seu sono, trancar a sua porta. [...] Todos ali tinham a sua vida isolada, sua vida particular. E, naquela hora, cortavam as amarras, cada um procurando o seu mundo pessoal, a sua pequenina ilha.

Rachel de Queiroz. Caminho de Pedras. Adaptado.

No primeiro trecho, publicado originalmente em 1903, o sociólogo Georg Simmel procurou condensar as características fundamentais da vida psíquica nas grandes cidades. Já no segundo, com que Rachel de Queiroz inicia o capítulo 7 de Caminho de Pedras, vemos como o protagonista Roberto percebe sua cidade a bordo de um bonde. Lendo-os em conjunto, é possível afirmar:



a)

As observações de Roberto contrariam a análise de Simmel. O “sorriso” dos empregados contradiz o diagnóstico de “embotamento” e “reserva” para com os outros.

b)

A vida “isolada” e “particular” descrita por Roberto, com que todos “cortavam as amarras”, é uma expressão da mesma reserva que Simmel argumenta produzir alguma liberdade.

c)

Ainda que haja semelhanças nas leituras, o modo “abstrato” com que os empregados passavam seus dias não é um aspecto psíquico das grandes cidades, mas da necessária desconfiança em atividades comerciais.

d)

A vida doméstica e particular sobre a qual Roberto reflete contradiz o diagnóstico de “intensificação da vida nervosa”, sugerindo uma rotina de impressões repetidas e imutáveis.

e)

O retrato da cidade em Caminho de Pedras confirma a análise de Simmel ao afirmar que a individualidade e o “embotamento frente à distinção das coisas” são expressos no espaço privado dos lares dos empregados.

Resolução

Georg Simmel descreve a vida metropolitana como marcada pela intensificação dos estímulos, o que gera o caráter blasé — um embotamento emocional em que o indivíduo reage com indiferença porque já não distingue plenamente o que é novo ou relevante. Trata-se de uma defesa psíquica contra o excesso de impressões. Dessa condição deriva a reserva, um distanciamento social presente nos contatos fugazes da cidade e que, ao mesmo tempo, garante certa liberdade pessoal ao indivíduo.

Rachel de Queiroz ilustra essa dinâmica ao mostrar os empregados abandonando seu papel público e impessoal para recuperar sua individualidade na vida privada, refugiando-se em sua “pequenina ilha”. Esse movimento expressa o afastamento da impessoalidade urbana e a busca de um espaço próprio, paralelo à reserva analisada por Simmel.

a) Incorreta. O comportamento “sorridente” ou “abstrato” dos empregados não contradiz Simmel, pois corresponde ao papel público desempenhado na esfera impessoal da cidade. A retirada para a vida privada, por sua vez, confirma a reserva e o isolamento descritos pelo autor.

b) Correta. A “vida isolada” e “particular” descrita por Rachel de Queiroz coincide com a reserva que, para Simmel, protege o indivíduo da impessoalidade metropolitana e lhe garante certa liberdade pessoal. Ao “cortar as amarras” da vida pública e se recolher à sua “pequenina ilha”, o sujeito realiza precisamente o movimento de distanciamento e individualização que Simmel identifica como resposta à intensificação da vida nervosa e ao caráter blasé.

c) Incorreta. O estado “abstrato” dos empregados não decorre apenas da desconfiança comercial, mas se relaciona ao caráter blasé, mecanismo psíquico típico da metrópole descrito por Simmel. Esse embotamento não é restrito a práticas comerciais, mas resultante da sobrecarga de estímulos urbanos e da necessidade de reserva. A alternativa reduz indevidamente um fenômeno psicológico amplo.

d) Incorreta. A vida doméstica e particular não contradiz a “intensificação da vida nervosa”; ela funciona como refúgio frente ao ritmo acelerado e às impressões incessantes da cidade grande. A busca por uma “ilha” pessoal é justamente um desdobramento da dinâmica psicológica descrita por Simmel, e não uma negação dela.

e) Incorreta. O embotamento — expressão do caráter blasé — é característico da esfera pública, onde o indivíduo precisa se proteger da avalanche de estímulos e contatos superficiais. Na esfera privada, ao contrário, os sujeitos recuperam sua individualidade, tornam-se “misteriosos” e buscam seu “mundo pessoal”. Por isso, não é no lar que se manifesta o embotamento, mas na rua e no ambiente público da metrópole.