Decretou então o ótimo Artífice que àquele ao qual nada de próprio pudera dar tivesse como privativo tudo quanto fora partilhado por cada um dos demais. Assim, pois, tomou o homem, essa obra de tipo indefinido, e, tendo-o colocado no centro do universo, falou-lhe nestes termos: ‘A ti, ó Adão, não temos dado nem uma sede determinada, nem um aspecto peculiar, nem uma função singular precisamente para que o lugar, a imagem e as tarefas que reclamas para ti, tudo isso tenhas e realizes, mas pelo mérito de tua vontade e livre consentimento. As outras criaturas já foram prefixadas em sua constituição pelas leis por nós estatuídas. Tu, porém, não estás contido por amarra nenhuma. Antes, pela decisão do arbítrio, em cujas mãos te depositei, hás de predeterminar a tua compleição pessoal. Eu te coloquei no centro do mundo, a fim de poderes inspecionar, daí, de todos os lados, da maneira mais cômoda, tudo que existe.
Pico della Mirandola. Discurso sobre a dignidade do homem. In: PICO, Giovanni, Conde de Mirândola e de Concórdia. A dignidade do homem. 2ª. ed. Campo Grande: Solivros/Uniderp, 1999. Adaptado.
Elaborado em 1486, na região da atual Itália, o texto do humanista Pico della Mirandola apresenta algumas características do movimento renascentista, dentre as quais
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a ética protestante e o espírito do capitalismo. |
| b) |
a perspectiva da evolução e do etnocentrismo. |
| c) |
a imortalidade do ser humano como pilar da construção da vida terrena. |
| d) |
o antropocentrismo pela ausência da referência divina. |
| e) |
a autonomia do ser humano como construtor de sua própria trajetória de vida. |
A questão proposta trata da análise de um trecho do texto "Discurso sobre a Dignidade do Homem", do humanista Pico della Mirandola (1463-1494), e sua relação com as características do movimento renascentista (séculos 14 a 16).
O Humanismo, núcleo filosófico do Renascimento, é marcado pela revalorização do ser humano, focando em suas capacidades e potencialidades, muitas vezes através do resgate dos valores da Antiguidade Clássica. A análise do texto é fundamental para identificar a característica correta.
a) Incorreta. A ênfase na ética protestante e o espírito do capitalismo é posterior, associada à Reforma (que ocorre após 1486) e à análise sociológica de fenômenos modernos, feita por Max Weber (1864-1920) não sendo a característica central do humanismo de Pico della Mirandola.
b) Incorreta. A perspectiva da evolução é um conceito que se desenvolve muito posteriormente, no século XIX. O etnocentrismo não é o foco principal do texto, que trata da natureza universal do ser humano.
c) Incorreta. Embora a imortalidade seja um tema religioso, a característica humanista proeminente neste trecho específico é a capacidade de autodeterminação do indivíduo no plano terreno, e não a imortalidade como pilar da construção da vida.
d) Incorreta. O texto se refere expressamente a uma entidade divina ("o ótimo Artífice" e "Eu te coloquei"), ou seja, não há ausência da referência divina. O antropocentrismo renascentista muitas vezes coexistia com o teocentrismo, colocando o homem no centro do universo como a mais elevada das criações divinas, mas a justificativa oferecida pela alternativa ("pela ausência da referência divina") está factualmente errada.
e) Correta. A ideia de que o homem é livre para "predeterminar a tua compleição pessoal" e que suas ações são definidas pelo "mérito de tua vontade e livre consentimento" e pelo "arbítrio" expressa a autonomia do ser humano como construtor de sua própria trajetória de vida. Essa é a característica central do Humanismo Renascentista e a principal mensagem do excerto.