Leia o texto e observe o mapa para responder às questões 34 e 35.
Nem existia Brasil no começo dessa história. Existiam o Peru e o México, no contexto pré-colombiano, mas Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos, Canadá, não. No que seria o Brasil, havia gente no Norte, no Rio, depois no Sul, mas toda essa gente tinha pouca relação entre si até meados do século XVIII. E há aí a questão da navegação marítima, torna-se importante aprender bem história marítima, que é ligada à geografia. [...] Essa compreensão me deu muita liberdade para ver as relações que Rio, Pernambuco e Bahia tinham com Luanda. Depois a Bahia tem muito mais relação com o antigo Daomé, hoje Benin, na Costa da Mina. Isso formava um todo, muito mais do que o Brasil ou a América portuguesa. [...]
Nunca os missionários entraram na briga para saber se o africano havia sido ilegalmente escravizado ou não, mas a escravidão indígena foi embargada pelos missionários desde o começo, e isso também é um pouco interesse dos negreiros, ou seja, que a escravidão africana predomine. [...] A escravização tem dois processos: o primeiro é a despersonalização, e o segundo é a dessocialização.
(Luiz Felipe de Alencastro. Entrevista a Mariluce Moura. “O observador do Brasil no Atlântico Sul”. In: Revista Pesquisa Fapesp, no 188, outubro de 2011.)
O texto estabelece a formação do Brasil a partir da navegação marítima, o que implica reconhecer a importância
a) |
da imposição de uma lógica global de comércio e da dissolução das fronteiras entre os territórios colonizados na América. |
b) |
do domínio colonial de Portugal sobre o litoral africano e da intermediação espanhola no tráfico escravagista. |
c) |
do controle das rotas marítimas por navegadores italianos e da conformação do conceito geográfico de Ocidente. |
d) |
da constituição do espaço geográfico do Atlântico Sul e da relação estabelecida entre os continentes americano e africano. |
e) |
do surgimento do tráfico de africanos escravizados e das relações comerciais do Brasil com a América espanhola. |
O tráfico transatlântico de escravos foi uma atividade presente na Colônia e no Império brasileiro, entre os séculos XVI e XIX. A substituição da mão de obra indígena pela africana teve como principal motivação a alta lucratividade que o comércio de africanos representava para Portugal. A partir do século XV, áreas da África Ocidental se tornaram entrepostos do tráfico, como a região da Costa da Mina, Guiné, Angola, São Tomé e Príncípe. O tráfico foi intensamente combatido pela Inglaterra desde meados do século XIX, um dos fatores que resultou na sua proibição de forma definitiva no ano de 1850, com a lei Eusébio de Queirós.
a) Incorreta. É impreciso considerar que o tráfico representou uma "imposição de uma lógica global", considerando que envolvia somente os continentes africano e americano, sendo portanto uma lógica atlântica. Além disso, embora o texto mencione que a ocupação brasileira no período era distinta ("No que seria o Brasil, havia gente no Norte, no Rio, depois no Sul, mas toda essa gente tinha pouca relação entre si até meados do século XVIII"), é incorreto afirmar que as fronteiras entre os territórios colonizados na América estavam dissolvidas. Vale lembrar que Portugal e Espanha eram concorrentes na expansão marítima e colonial, sendo a delimitação das fronteiras na América alvo de disputas e tratados entre os reinos ibéricos, visando delimitar as áreas de exploração de cada país.
b) Incorreta. Não é possível afirmar que Portugal tinha um domínio colonial sobre todo o território litorâneo da África. Além disso, a Espanha não intermediou o tráfico escravista retratado na imagem. Embora outros países tenham participado do tráfico (Holanda, Inglaterra e França), Portugal destacou-se na atividade por adentrar o continente africano, pilhando e expandindo suas redes de tráfico.
c) Incorreta. As rotas apresentadas na imagem não foram controladas por mercadores italianos, estes possuíam ampla presença na região do Mediterrâneo durante o final da Baixa Idade Média. Além disso, a mencionada rota de tráfico não apresentou relação com a conformação do conceito de Ocidente.
d) Correta. O tráfico transatlântico de escravos foi responsável pela intensa relação estabelecida entre os continentes americano e africano. A atividade de finalidade econômica contribuiu para um intenso intercâmbio cultural entre os dois continentes, com destaque para as diversas influências africanas na cultura brasileira.
e) Incorreta. O tráfico transatlântico de escravos não contribuiu para o aumento das relações comerciais do Brasil com a América espanhola. Tratava-se da chegada de escravos africanos para o comércio nos portos da colônia portuguesa, enquanto na América espanhola, a mão de obra predominante foi a indígena.