De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
1 Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão "de próprio punho". Parecia
2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem
3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade,
4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais
5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra,
6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca,
7 mais rotunda e mais cheia de arestas.
8 É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita,
9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso
10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que
11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de
12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou
13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever
14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais
15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias
16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje,
17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou
18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times
19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de "letras" à minha escolha. Eu e Deus
20 e o mundo.
21 A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca
22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até
23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços
24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está
25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na
26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus
27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its
28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico
29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso.
30 No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais
31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai
32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados
33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam
34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por
35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais
36 ainda as adultas) precisa conviver.
37 As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco
38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas
39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando,
40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de
41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta
42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação
43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados,
44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. "Do punho ao pixel" não é uma
45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais "o punho e o pixel".
RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).
O recurso linguístico usado para marcar a síntese da opinião da autora sobre a temática desenvolvida foi o(a)
| a) |
emprego da primeira pessoa em "Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão 'e próprio punho' ''. (l.1) |
| b) |
utilização de locução adverbial em "Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia". (I. 3-4) |
| c) |
uso de pronome possessivo em "Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância". (I. 5-6) |
| d) |
adoção de termo autorreflexivo em "No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma". (l. 30) |
| e) |
substituição da expressão "Do punho ao pixel" (l. 44) pela expressão "o punho e o pixel". (l. 45) |
a) Incorreta. O emprego da primeira pessoa ("Estranhei", "eu") marca a ênfase no caráter pessoal e subjetivo do relato, introduzindo o tema a partir da experiência da autora, mas não constitui a síntese final da tese desenvolvida.
b) Incorreta. A locução adverbial "Na verdade" é um recurso coesivo que enfatiza o ponto principal dentro de um contexto específico (a situação bancária), mas não resume a tese principal sobre a convivência tecnológica ao longo do texto.
c) Incorreta. O uso do pronome possessivo ("Minha letra") reforça a natureza pessoal da reflexão e serve para detalhar as mudanças na escrita da autora, sendo um ponto de desenvolvimento do tema, e não sua síntese conclusiva.
d) Incorreta. A adoção do termo autorreflexivo ("comigo mesma") refere-se à autoavaliação da autora em uma situação específica (a escrita de bilhetes no escritório), ilustrando o uso do manuscrito, mas não sintetiza a opinião geral sobre a relação entre as tecnologias.
e) Correta. A substituição da expressão "Do punho ao pixel" pela expressão "o punho e o pixel" é o recurso linguístico que condensa e finaliza a argumentação da autora. A mudança da preposição de movimento “a” (que denota transição/substituição) pela conjunção aditiva “e” (que denota soma/coexistência) sintetiza a opinião de que as formas de escrita, manual e digital, coexistem no mundo contemporâneo.