O retrato como gênero da pintura ocidental ficou vinculado às elites, tornando invisíveis as populações que não faziam parte do círculo dominante. Num país de tradição escravocrata e colonizado por europeus como o Brasil, pouquíssimas pessoas negras e indígenas foram retratadas em pintura, e menos ainda identificadas com seus nomes nos retratos. Daí a importância, para a história da arte e para a história brasileira, dos retratos de Dalton Paula.

Figura 1
PAULA, D. Zeferina. Óleo sobre tela, 59 x 44 cm. Masp, São Paulo, 2018.

Figura 2
PAULA, D. João de Deus Nascimento. Óleo sobre tela, 59,5 x 44 cm. Masp, São Paulo, 2018.
Ao dar protagonismo a Zeferina e a João de Deus Nascimento, o artista Dalton Paula evidencia que a(s)
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arte pode promover formas de afirmação de identidade social. |
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comunidades periféricas passam a adquirir o gênero retrato. |
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personagens retratadas simbolizam a sociedade brasileira. |
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pintura funciona como instrumento de ascensão social. |
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imagens tradicionais preservam memórias afetivas. |
a) Correta. O ato de retratar figuras negras históricas que foram apagadas, com dignidade e centralidade (como em um gênero artístico tradicionalmente elitista), é uma forma poderosa de afirmação da identidade, da história e do protagonismo dessas populações na sociedade brasileira. A arte age aqui como um instrumento político e social de visibilidade e reconhecimento.
b) Incorreta. O retrato tradicionalmente não pertence às comunidades periféricas, mas sim às elites. O que ocorre é que a arte contemporânea, como a de Dalton Paula, apropria-se do gênero elitista (o retrato a óleo) para aplicá-lo a figuras de comunidades históricamente periféricas (e não elitistas), promovendo uma reversão de poder simbólico, mas não a aquisição generalizada do gênero pelas comunidades.
c) Incorreta. Embora Zeferina e João de Deus sejam figuras representativas da luta negra e da história brasileira, o termo "simbolizam a sociedade brasileira" é muito vago e enfraquece a importância de seu protagonismo específico. A obra não busca um simbolismo genérico, mas sim o reconhecimento de sua individualidade e ação histórica.
d) Incorreta. A pintura confere visibilidade e dignidade histórica aos personagens retratados, mas não é um "instrumento de ascensão social" para eles (que já faleceram) ou diretamente para as comunidades, no sentido econômico/social comum. A ascensão é simbólica/histórica, mas a alternativa é muito literal e simplista para o contexto.
e). Incorreta. A pintura de Dalton Paula não é uma imagem tradicional das figuras (pois não havia imagens disponíveis), mas sim uma fabulação construída pelo artista para criar essa memória e dignidade (o "lugar do desejo", como o próprio artista descreve). O artista está criando as imagens que faltavam, e não preservando memórias afetivas por meio de imagens tradicionais.