A "invenção" dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, que se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros e esboçam aos poucos a fachada de um método geral. Encontramo-los em funcionamento nos colégios, muito cedo; mais tarde, nas escolas primárias, no espaço hospitalar e na organização militar.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2011.
O texto indica o seguinte aspecto da disciplina como ferramenta política:
| a) |
Expansão das técnicas de suplício. |
| b) |
Judicialização das relações de poder. |
| c) |
Dissolução das distinções de nobreza. |
| d) |
Capilarização das práticas de controle. |
| e) |
Espetacularização das medidas de penitência. |
O texto de Foucault evidencia que a disciplina como ferramenta política não é um sistema imposto abruptamente, mas um mecanismo molecular e descentralizado, formado por uma acumulação de micropoderes e técnicas mínimas (como o controle do tempo, do espaço e do corpo) que surgiram de forma dispersa em instituições como colégios, escolas, hospitais e quartéis. Esses processos, ao se reforçarem e imitarem mutuamente, convergiram gradualmente para constituir uma "anatomia política" generalizada e um método de poder sutil, mas extremamente eficaz, para gerir e controlar as populações.
a) Incorreta. Suplício é a forma de poder espetacular e violento do soberano que Foucault contrapõe à disciplina. A disciplina, como descrita no texto, é uma tecnologia de poder sutil e infraestrutural, não baseada no castigo físico público.
b) Incorreta. A judicialização pressupõe a mediação do poder pelo sistema legal formal. A disciplina, no entanto, opera por meio de mecanismos extrajudiciais, normatizando comportamentos diretamente no corpo social, em instituições como escolas e quartéis.
c) Incorreta. O foco do texto não é a estratificação social ou o fim de privilégios de classe, mas sim a descrição de um novo tipo de poder (a disciplina) que atravessa todas as classes para gerir corpos e populações.
d) Correta. O texto descreve precisamente como a disciplina se constitui a partir de uma multiplicidade de processos mínimos e dispersos (em colégios, escolas, hospitais), que se espalham de forma capilar pela sociedade para esboçar um método geral de controle.
e) Incorreta. A espetacularização é uma característica do poder soberano (exemplificado pelos suplícios públicos), enquanto a disciplina descrita por Foucault é antiespetacular, funcionando por meio do controle contínuo, discreto e individualizante.