Analise parte da letra da música “Tô ouvindo alguém me chamar”, de Mano Brown, faixa de Sobrevivendo no inferno, álbum lançado em 1997 pelos Racionais MC’s.
Nunca mais vi meu irmão
Diz que ele pergunta de mim (não sei não)
A gente nunca teve muito a ver
Outra ideia, outro rolê
Os maluco lá do bairro
Já falava de revólver, droga, carro
Pela janela da classe, eu olhava lá fora
A rua me atraía mais do que a escola
Fiz dezessete, tinha que sobreviver
Agora eu era um homem, tinha que correr
No mundão você vale o que tem
Eu não podia contar com ninguém
[...] fica você com seu sonho de doutô
Quando acordar cê me avisa, morô?
Eu e meu irmão era como óleo e água
Quando eu saí de casa trouxe muita mágoa
Isso há mais ou menos seis anos atrás [...]
Meu sobrinho nasceu
Diz que o rosto dele é parecido com o meu
É, diz...
Um pivete eu sempre quis
Meu irmão merece ser feliz
Deve estar a essa altura
Bem perto de fazer a formatura
Acho que é direito, advocacia
Acho que era isso que ele queria
Sinceramente, eu me sinto feliz
Graças a Deus, não fez o que eu fiz
Minha finada mãe, proteja o seu menino
O diabo agora guia o meu destino
Se o júri for generoso comigo
Quinze anos pra cada latrocínio
Sem dinheiro pra me defender [...]
(Sobrevivendo no inferno, 2018.)
O excerto da letra identifica
| a) |
o reconhecimento da criminalidade como problema de caráter moral nas áreas de grande concentração populacional no Brasil republicano. |
| b) |
a denúncia da inexistência de políticas públicas, durante o regime militar brasileiro, voltadas ao acolhimento de jovens negros das periferias das grandes cidades. |
| c) |
a constatação dos efeitos do racismo estrutural, surgido na sociedade brasileira após a abolição da escravidão nos anos finais do Segundo Reinado. |
| d) |
o contraste entre os padrões normatizados de conduta na sociedade brasileira contemporânea e a marginalização social de parte da população pobre. |
| e) |
a supressão, após o fim do regime militar brasileiro, das políticas educacionais e do estímulo ao emprego para a população negra das grandes metrópoles. |
O excerto da música narra o contraste entre as trajetórias de dois irmãos: o narrador, que se envolveu com a criminalidade ("revólver, droga, carro", "A rua me atraía mais do que a escola", "Quinze anos pra cada latrocínio"), e seu irmão, que seguiu o caminho da ascensão social pela educação ("sonho de doutô", "fazer a formatura", "direito, advocacia").
a) Incorreta. A letra não retrata a criminalidade como um problema de caráter moral. O narrador explica sua escolha como uma necessidade de sobrevivência ("tinha que sobreviver", "No mundão você vale o que tem"), sugerindo que é uma consequência do ambiente e da exclusão social (um problema estrutural), e não uma falha puramente moral ou de índole individual.
b) Incorreta. Embora a música dos Racionais MC's seja uma forte denúncia social e a inexistência de políticas públicas seja o pano de fundo do problema, a alternativa restringe o problema temporalmente ao regime militar brasileiro. O álbum é de 1997 e o problema social da marginalização é abordado no contexto da sociedade brasileira pós-ditadura, sendo o contraste entre os irmãos o foco central, não a política de uma época específica.
c) Incorreta. O racismo estrutural é, sem dúvida, um elemento subjacente à marginalização das periferias (contexto geral da obra), mas a alternativa erra ao dizer que o problema do racismo estrutural surge no Brasil apenas após a abolição, ou seja, nos anos finais do Segundo Reinado.
d) Correta. A letra estabelece um claro contraste entre os padrões normatizados de conduta, representados pelo irmão, que busca o sucesso e a ascensão via educação formal e carreira (advocacia/doutor), e a marginalização social de parte da população pobre, representada pelo narrador, cuja vida foi marcada pela rua, pelo crime e pela exclusão. O excerto identifica, portanto, a divergência de destinos e a dificuldade de acesso à norma social para quem vive à margem, uma característica marcante da sociedade brasileira contemporânea.
e) Incorreta. Embora a música possa ser interpretada como uma denúncia da ausência de políticas públicas no período pós-ditadura, o termo "supressão" implica que tais políticas existiram em um grau significativo e foram ativamente retiradas. Historicamente, o período pós-ditadura não viu uma "supressão" (remoção) de políticas educacionais de grande impacto voltadas especificamente para a população negra da periferia, mas sim a continuidade da ausência dessas políticas ou a sua insuficiência crônica, o que é o ponto de crítica dos Racionais.