Maquiando os transgênicos
Mostarda mais palatável que alface? Indústria alimentícia usa técnica premiada com o Nobel para tornar alimentos mais atrativos e tentar quebrar resistência de parte dos consumidores
O primeiro protótipo tem previsão de lançamento no mercado ainda em 2025: uma folha de mostarda geneticamente modificada para remover sua picância. A proposta foi originalmente desenvolvida pela startup de tecnologia agrícola Pairwise, que firmou um acordo exclusivo de licenciamento de produto com a multinacional alemã Bayer para desenvolver e comercializar o vegetal. As modificações foram feitas a partir de uma técnica capaz de alterar com alta precisão o DNA de animais, plantas e microrganismos, a mesma que, em 2020, rendeu às pesquisadoras Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna o Prêmio Nobel de Química.
(Raoni Schroeder. https://cienciahoje.org.br, maio de 2025. Adaptado.)
Sob os pontos de vista da geografia e da biologia, a produção de gêneros agrícolas transgênicos promove, respectivamente,
| a) |
a redefinição do conceito de espaço rural e a validade da teoria da evolução das espécies na contemporaneidade. |
| b) |
o desenvolvimento de novas relações de trabalho no campo e a redução dos impactos antrópicos sobre os espaços naturais. |
| c) |
a ineficácia da modernização do campo diante da mão de obra não qualificada e a adaptação de espécies nativas em novos ambientes de cultivo. |
| d) |
a incorporação de saberes tradicionais nas áreas agrícolas e a interrupção de ciclos biogeoquímicos associados à vida vegetal. |
| e) |
a dificuldade no acesso de pequenos agricultores às sementes produzidas em laboratório e a descaracterização de mecanismos naturais de defesa contra predadores. |
A questão solicita a análise das consequências da produção de organismos geneticamente modificados (transgênicos) na agricultura a partir das óticas da Geografia (implicações socioeconômicas e espaciais no meio rural) e da Biologia (implicações diretas no organismo e no ambiente).
Analisando as alternativas com base nessas duas perspectivas afirma-se que:
a) Incorreta. Embora a transgenia contribua para a modernização e alteração do espaço rural, a redefinição do conceito é uma consequência indireta e a principal questão geográfica ligada à transgenia é a propriedade e o acesso à tecnologia. Do ponto de vista da Biologia, organismos transgênicos são seres vivos geneticamente modificados que receberam fragmentos de DNA originários de outra espécie para atender à um interesse humano. A transgenia é uma aplicação da genética, não estando diretamente ligada à validade da teoria da evolução, que é um conceito estabelecido.
b) Incorreta. O desenvolvimento de novas relações de trabalho no campo não é o impacto geográfico mais direto e crítico da transgenia em termos socioeconômicos (o acesso é mais relevante). Na Biologia, a redução dos impactos antrópicos (humanos) não é uma garantia da transgenia, que pode levar, por exemplo, ao uso contínuo de herbicidas específicos. A transgenia, inclusive, pode provocar riscos e danos ao ecossistema selvagem como redução de variabilidade genética e cruzamento com variantes selvagens não modificadas.
c) Incorreta. A modernização do campo (incluindo o uso de transgênicos) é, em geral, eficaz para a produção em larga escala com o agronegócio e a questão não trata da ineficácia diante da mão de obra. Na Biologia, a transgenia é a manipulação direta do DNA da espécie cultivada, não se tratando da adaptação natural de espécies nativas.
d) Incorreta. A produção de sementes transgênicas patenteadas e de alta tecnologia está associada à perda de saberes tradicionais e não à sua incorporação. Na Biologia, embora o impacto nos ciclos biogeoquímicos seja uma preocupação, a descaracterização do organismo (alternativa E) é uma consequência mais imediata da modificação genética.
e) Correta. De fato, do ponto de vista biológico, a remoção da picância da mostarda se constitui em uma forma de diminuição da defesa natural da planta em relação a organismos predadores e/ou parasitas.
Perspectiva Geográfica (Acesso às Sementes): a produção de sementes transgênicas é controlada por um oligopólio de grandes empresas multinacionais (como o grupo Bayer-Monsanto), que detêm as patentes. Isso resulta em sementes de alto custo e em contratos de licenciamento restritivos, gerando uma dificuldade de acesso para pequenos agricultores e aumentando sua dependência das grandes corporações.
Perspectiva Biológica (Mecanismos de Defesa): o exemplo citado no texto é a modificação da mostarda para remover sua picância, que é uma defesa química natural contra herbívoros e pragas. Essa alteração genética deliberada representa a descaracterização de mecanismos naturais de defesa contra predadores, uma preocupação central da biotecnologia que pode levar as plantas a dependerem de defensivos agrícolas ou a se tornarem mais suscetíveis a novas ameaças.