Leia a citação a seguir, extraída do conto “Pera, uva ou maçã?”, publicado no livro Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu, e assinale a alternativa correta sobre o excerto.
Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão bonitas e tão vermelhas que pedi um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada e daí eu pensei assim se comprar essas ameixas agora vou ter que voltar a pé para casa mas que importa volto a pé mesmo pode ser até que acorde um pouco e aquela coisa lá longe volte pra perto de mim e então eu vinha caminhando devagarinho as ameixas eu não conseguia parar de comer sabe já tinha comido acho que umas seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um caixão de defunto do sobrado amarelo na esquina certo acho que era um caixão cheio quer dizer com defunto dentro porque ia saindo e não entrando certo e foi bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu tropecei no caixão e as ameixas todas caíram assim paf! na calçada e foi aí que eu reparei naquelas pessoas todas de preto e óculos escuros e lenços no nariz e uma porrada de coroas de flores devia ser um defunto muito rico certo e aquele carro fúnebre ali parado e só aí eu entendi que era um velório.
(ABREU, C. F. Morangos Mofados. 9ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, p. 105-106, 2015.)
| a) |
A presença de orações como “foi então que vi”, “foi aí que eu reparei” e “só aí eu entendi” cria um efeito de retardamento da narrativa, o que reflete o estado psicológico de apatia da personagem que fala. |
| b) |
A ausência de pontuação cria um efeito de aceleração da narrativa, o que reflete o estado psicológico de ansiedade da personagem que fala. |
| c) |
A presença de orações como “foi então que vi”, “foi aí que eu reparei” e “só aí eu entendi” rompe a sequência temporal da narrativa, prejudicando o seu desenvolvimento lógico. |
| d) |
A ausência de pontuação desorganiza a sequência das ações da personagem, o que reflete sua confusão e causa uma ambiguidade de sentido em sua narrativa. |
A questão proposta exige uma análise do estilo e dos recursos linguísticos empregados no excerto de Caio Fernando Abreu e sua relação com o estado psicológico da personagem.
a) Incorreta. A presença de orações como “foi então que vi”, “foi aí que eu reparei” e “só aí eu entendi” funciona como marcadores de progressão narrativa e de etapas de consciência da personagem. Essas expressões demarcam momentos de observação e de epifania, ou seja, de descoberta ou compreensão, o que direciona a ação (o que ela viu, o que ela notou, o que ela entendeu), e não a retarda. Além disso, o fluxo contínuo e a natureza do pensamento da personagem sugerem mais uma agitação interna ou ansiedade do que apatia.
b) Correta. O texto é marcado pelo fluxo de consciência, característica modernista e muito explorada por Caio Fernando Abreu. A ausência de pontuação convencional (como vírgulas separando orações coordenadas assindéticas e pontos finais em momentos esperados) gera um encadeamento rápido das ideias, dos pensamentos e das ações da personagem. Essa estrutura sintática, que mimetiza o pensamento ininterrupto e desordenado, provoca um efeito de aceleração da leitura e da narrativa, que é um recurso estilístico para refletir o estado psicológico de ansiedade, inquietação e o turbilhão emocional da personagem que narra.
c) Incorreta. As orações “foi então que vi”, “foi aí que eu reparei” e “só aí eu entendi” são elementos coesivos que servem justamente para estabelecer e reforçar a sequência temporal e lógica da percepção da personagem (primeiro vê, depois repara, e só por último compreende). Elas não rompem, mas sim demarcam o desenvolvimento da narrativa.
d) Incorreta. Embora a ausência de pontuação desorganize a estrutura formal da frase (sintaxe), a sequência das ações e o sentido principal da narrativa são claros. A personagem compra as ameixas, caminha, come, tropeça no caixão e entende que se trata de um velório. Não há ambiguidade de sentido nos eventos narrados. O efeito primário é de velocidade e reflexo do pensamento interior, como explicitado na alternativa (b).