Para responder às questões de 18 a 20, leia a crônica de Luis Fernando Verissimo.
Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:
Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
— Ronca.
— Não ronco.
— Ele diz que não ronca — comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar feito e sai cedo. Ficam os dois sozinhos.
— Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer — diz ela. E em seguida tem a ideia infeliz. — É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.
— Humrfm — diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.
Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
— Rará! — diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa. A velha também ronca!
— Rará! — diz o velho, vingativo.
E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio — por causa dos roncos — não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes. É um diálogo sussurrado.
“Estão prontos?”
“Não, acho que ainda não…”
“Então vamos voltar amanhã…”
(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)
Em sua crônica, o autor caracteriza o ofício de escrever como
| a) |
prescindível. |
| b) |
estimulante. |
| c) |
fortuito. |
| d) |
insondável. |
| e) |
irresistível. |
a) Incorreta. “Prescindível” caracteriza aquilo de que se pode prescindir; desnecessário; dispensável; supérfluo. O ofício de escrever é exatamente o oposto para o autor, isto é, trata-se de uma necessidade irresistível.
b) Incorreta. Para o autor, o ofício de escrever não é estimulante, mas uma necessidade, algo incontrolável: “Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono”.
c) Incorreta. “Fortuito” diz respeito àquilo que acontece sem ter sido planejado, por acaso. Para Veríssimo, o ato de escrever não ocorre por acaso, mas por decorrência de uma ideia, ainda que ela seja ruim.
d) Incorreta. “Insondável” é definido como aquilo que não se pode entender ou explicar, trata-se de algo inexplicável. Na visão de Veríssimo, escrever é irresistível, o que o torna em certa medida dominado por seu ofício. O autor explica que, ao ter uma ideia, é preciso escrevê-la: “Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais”.
e) Correta. Para o cronista, o ofício de escrever é irresistível. É possível notar isso no trecho: “Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. (...) Vá passear, vá tomar sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha”.