"A negação da plena humanidade do Outro, o seu enclausuramento em categorias que lhe são estranhas, a afirmação de sua incapacidade inata para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano, a destituição da sua capacidade de produzir cultura e civilização prestam-se a afirmar uma razão racializada, que hegemoniza e naturaliza a superioridade europeia."
(CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade. A construção do outro como não ser como fundamento do ser. São Paulo: Zahar, p. 91, 2023.)
Escolha a alternativa que apresenta crítica semelhante à de Sueli Carneiro.
a) |
"Tão essencial é a diferença entre essas duas raças humanas [branca e negra], que parece ser tão grande em relação às capacidades mentais quanto às diferenças de cores." (E. Kant. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. Campinas: Papirus, p. 75- 76,1993.) |
b) |
"É na brutalidade e na selvageria que vemos o homem africano, na medida em que o podemos observar; e assim permanece hoje." (Hegel. A razão na história. Lisboa: Edições 70, p. 218.) |
c) |
“A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem, e o branco sofreu a inevitável piora de caráter, consequente a todos os cruzamentos entre raças díspares". (Personagem Miss Jane, do livro O Presidente Negro, de Monteiro Lobato. São Paulo: Editora Lafonte, p. 82, 2019.) |
d) |
"Na medida em que o racismo, enquanto discurso, se situa entre os discursos de exclusão, o grupo por ele excluído é tratado como objeto e não como sujeito." (Lélia Gonzales. Cultura, etnicidade e trabalho: efeitos linguísticos e políticos da exploração da mulher". In: RIOS, F.; LIMA, M. Por um feminismo afro-latino-americano. São Paulo: Zahar, p. 43, 2020.) |
Também nesse exercício a Unicamp exigiu leitura atenta de seus candidatos e candidatas. E o fez de uma maneira muito interessante - contrapondo Sueli Carneiro, filósofa negra formada na USP, com dois autores clássicos da história da filosofia e um autor de renome da literatura nacional. Por fim, aparelhou o texto da escritora com o de Lélia Gonzales, filósofa e antropóloga mineira, uma das primeiras ativistas intelectuais do movimento negro brasileiro. Dito isso, analisemos as alternativas:
a) Incorreta. A frase do filósofo alemão Immanuel Kant exemplifica a "razão racializada", mencionada por Sueli Carneiro - razão que pensa segundo as categorias biológicas (não sociológicas) de raça. Segundo o raciocínio do pensador alemão, as diferenças de cores expressariam diferenças mentais - e, consequentemente, diferenças de "capacidades", como se lê na frase.
b) Incorreta. Um estereótipo muito comum, quando da época de Hegel (e, em alguns casos, ainda hoje), é o do africano forte, bruto, selvagem - apto para tarefas manuais e vis; nem um pouco capacitado para tarefas intelectuais. Nos séculos XVIII e XIX a Europa difundia ideários raciais que, na melhor das hipóteses, colocavam o negro como sujeito a ser redimido pela história. Nada mais longe disso do que a crítica de Sueli Carneiro - motivo pelo qual o item não pode ser correto.
c) Incorreta. Na linha de Oliveira Vianna e Nina Rodrigues, por exemplo, segue o comentário de Monteiro Lobato: "a miscigenação degenerou a raça branca, a melhor das raças; degenerou também as raças negras, que tinham em seu vigor um ponto positivo; o Brasil, enquanto país de mestiços, está fadado ao atraso". Vê-se, aqui, se é que podemos isso afirmar, algo "pior" do que a ideia de "democracia racial", defendida por autores como Gilberto Freyre, Donald Pierson, Thales de Azevedo, Oracy Nogueira ou Marvin Harris. Esses últimos ainda viam na miscigenação algo importante. Em Monteiro Lobato, ou, como já dito, em Vianna, Rodrigues e outros, nem isso. Mais ainda: em qualquer um deles, não encontraremos uma crítica minimamente semelhante à crítica de Sueli Carneiro - o que não pode configurar o item como correto.
d) Correto. O livro Mulheres Quilombolas, exemplar de coleção organizada por Djamila Ribeiro, coordenadora do "Selo Sueli Carneiro", traz a seguinte reflexão sobre Lélia Gonzales, autora da frase do item d: "Lélia Gonzales, após retornar de experiências de diálogo com outras feministas latino-americanas, dedicou-se a escrever textos e fazer palestras divulgando as especificidades e as diversidades das mulheres negras e indígenas entre os países deste continente. Gonzales lançou o termo 'amefricanas' para tratar das experiências negras latino-americanas e fez uma série de recomendações tanto ao movimento negro quanto ao movimento das mulheres" (Mulheres Quilombolas: territórios de existências negras femininas. Organização de Selma dos Santos Dealdina. São Paulo: Sueli Carneiro, Jandaíra: 2020, páginas 121 e 122). Esses já são motivos suficientes para justificar o gabarito da letra d. Para além disso, entrentato, vale destacar que o item é correto porque é condizente com o enunciado, que pede uma crítica semelhante à crítica de Sueli Carneiro. Ora, nos dois casos - a leitura atenta assim nos faz concluir - encontramos a crítica ao racismo estrutural, que faz do negro um não eu, um outro; um objeto.